A recente pesquisa Datafolha sobre o desempenho de Jair na pandemia revela, de modo muito interessante, o papel da narrativa midiática.

Vamos aos dados, como mostrados na edição de hoje (14-12) do JN.

Como vemos, a partir de abril deste ano, a avaliação ótimo/bom para o desempenho de Jair na pandemia cai, assim como a avaliação regular. Isso começa a se alterar a partir do final do final de julho, começo de agosto, quando a avaliação positiva de Jair volta a subir, o que permanece no patamar até este mês de dezembro.

Recuperando a história recente, vamos comparar o comportamento da mídia, e aqui evidencio a atuação do JN, mas não somente. O que temos então:

  • No final do mês de março, reportagens no JN mostram que a pandemia chega ao país com força. O ministro da Saúde era Mandetta, e a situação era mostrada como estando sob controle, com várias ações em todos os estados, hospitais de campanha sendo construídos, preparação para o caos. Começava também a discussão sobre ações necessárias para ajudar os desempregados e as pessoas que estavam sem renda. Bolsonaro já começa a ser negligenciado, colocado de lado; o protagonismo é do ministro Mandetta.
  • No início do mês de abril, com a crise da pandemia se agravando, vemos surgir outra crise, delineada por William Bonner na abertura do jornal: o anúncio grave de Bonner resumindo as inquietações do dia: “Desde o início do dia, rumores correram de Brasília para o Brasil inteiro sobre uma saída de Luis Henrique Mandetta do cargo de ministro da Saúde. O Brasil acompanhou isso com aflição porque, como todos sabem, o ministro defende medidas de isolamento para combater a disseminação da doença enquanto o presidente da República, que é o chefe dele, discorda, diverge, presidente que o desautorizou na semana passada, inclusive ameaçou o ministro de demissão no fim de semana. Por tudo isso, foi uma segunda-feira de enorme tensão com esses rumores todos”.
  • No dia 16-04, a saída do ministro Mandetta evidencia o tamanho do problema do país e dimensiona, para a opinião pública, a postura anticiência do presidente da Republica.
  • No dia 20-04, após Bolsonaro dar seu apoio a manifestantes que pediam a volta do AI-5, a edição do JN dimensiona o caos que o país vive com a Covid e a falta de ação do presidente.
  • Ao longo do mês de abril, a pandemia se torna uma realidade cada vez mais grave no Brasil e presença marcante, pela mídia, nos lares brasileiros. Edições tomadas pelo tema, manchetes nas capas de jornais e revistas, reportagens enormes mostrando covas abertas aos montes. A completa ausência de Jair do centro de comando é super evidente.
  • No dia 24-04, novo clímax do caos, com a saída tumultuada de Sergio Moro do governo. A edição do JN foi memorável, quase uma peça antecipada de campanha. No dia 29, a edição do JN se dedica a desconstruir Jair depois que ele diz que a pandemia é uma “gripezinha”: em 13 minutos, entre outros assuntos, o JN mostrou que Jair Bolsonaro é o chefe de Estado no mundo que tem a pior postura em relação ao enfrentamento da pandemia. E fez isso de forma inquestionável, reconstruindo a memória do espectador e fazendo a ligação entre a fala do mito e a explosão do vírus.

Os meses de maio e junho mantêm essa toada de desconstrução de Jair. Ele foi deixado ao natural, livre, leve e solto para falar todas as asneiras e idiotices que quisesse. Aparecia sem máscara, comia churrasquinho na praça, fazia propaganda de cloroquina, conversava com as emas, criticava a OMS. E tudo era mostrado, em detalhes, sem cortes nem edições. Jair ao natural.

Por muito tempo. Todo dia. O que sem dúvida se refletiu na queda de apoio de que já falamos, mostrada pela pesquisa.

Até entrar em cena a parte 2 do grande acordo nacional. 

A partir de 16 de agosto, há uma reordenação no tom da cobertura: a Covid ganha novo enfoque (perde a dramaticidade, a urgência na cobertura), política e economia desaparecem de cena, temas alto astral passam a ocupar as edições. Nova ordem, novos arranjos. Jair volta a aparecer quase como presidente: comportado, terno impecável, cabelo alinhado, falando manso, sem arroubos, falas editadas, sempre ao lado dos líderes da Câmara e do Senado. Enfim, empacotado adequadamente. O momento já era outro.

Exatamente quando a pesquisa mostra a recuperação da avaliação positiva dele. 

É evidente que o cenário é todo muito complexo, que há vários fatores e atores que se coadunam para explicar esse estado de coisas que o país vive. No entanto, não dá pra desprezar o fato de que, quando a mídia corporativa achincalhou Jair, o desconstruiu, o golpe foi sentido. Ou seja, há espaço para nova desconstrução. Aguardemos.