Quase dois anos depois do impeachment, o JN começou a embarcar numa onda bastante apolítica, sem partidarismo ou polarização. No começo de 2018, as edições foram dominadas por aquele mote “o Brasil que a gente quer”, que não era o da política, segundo o JN. O Brasil almejado era o do empreendedorismo, de “gente que faz”, do sempre agro é pop. Dando um tempo talvez para que se construísse um candidato viável à direita – que não era Jair. Essa tendência está voltando, ainda timidamente, mas está voltando. Vamos aos detalhes.

O destaque da edição foi a eleição para as presidências da Câmara e do Senado. Para a eleição do Senado, já finalizada, a edição dedicou 8 minutos, com bastante destaque para a fala do senador Rodrigo Pacheco chamando à união, à pacificação. Espaço também para a fala do ex-presidente, Davi Alcolumbre. A reportagem mostrou as articulações e os nomes em disputa, de modo bastante formal e burocrático, e o abandono da candidatura de Simone Tebet – apunhalada pelo próprio partido (lembrando que ela era musa do impeachment nas acusações a Dilma Rousseff, foi traída pelo partido). A reportagem mencionou “denúncias” de compras de votos, assim como se fossem apenas fofocas. Ao final, a informação de que o Planalto não quis comentar a denúncia de compra de votos. Somente isso e nada mais. 

Sobre a eleição da Câmara, a reportagem foi mais enfática um pouco mais e mostrou o “clima de tensão e disputa”, além de brigas internas, com os bate-bocas durante a reunião de líderes, quando o então ainda candidato Arthur Lira questionou a decisão de Rodrigo Maia de aceitar a inscrição do PT no bloco adversário de apoio a Baleia Rossi, depois do meio dia, que era o prazo regimentar. Segundo a reportagem, o conflito retrata a “polarização” e a disputa na Câmara entrs os blocos de apoio e de oposição a Jair Bolsonaro. Houve destaque para a decisão do DEM de apoiar Lira e a ameaça feita por Maia, ainda presidente, de aceitar um dos pedidos de impeachment de Jair, ressaltando-se que essa era a principal preocupação do Planalto. Tudo bem técnico e formal, ressaltando ainda que o presidente da Câmara tem o poder de controlar a agenda de votação e levar adiante as pautas de reformas necessárias.

Mas também dourou a pílula em relação à compra do Centrão, apenas mencionando a denúncia de Maia de que teria havido liberação de 20 bilhões para emendas parlamentares. A denúncia, notem, era de Maia, que saía da presidência. Apenas mencionaram, destacando também a intenção de Bolsonaro de ampliar número de ministérios. A flagrante compra de votos foi tangenciada, quase como pratica inevitável, para garantir um aliado na Câmara. Tudo bem técnico.

O BRASIL QUE QUEREMOS DE NOVO

É aquele do empreendedorismo, do agro é pop, das coisas legais e pra frente. Portanto, matérias de superação e de recorde de safras voltam a tomar conta do JN. Além, é claro, do espaço cada vez maior para a chatice das comemorações do futebol – com as velhas e manjadas falas de jogadores e comemorações de torcedores, mesmo com a pandemia. No rol do empreendedorismo, matéria de 3 minutos mostrou um projeto que possibilita às mulheres de comunidades pobres do RJ receberem financiamento para empreender (o verbo mágico). E, claro, há sempre o protagonismo da iniciativa privada – o investimento nos pequenos negócios é com dinheiro doado pela iniciativa privada. “Sem trabalho, a solução é empreender”, sinalizou a reportagem – não vou me surpreender se os programas de Huck reforçarem ainda mais esse conceito…

Pra fechar o bloco do país que queremos, reportagem com cara de encomenda (assessoria) do novo recorde do agro é pop. A reportagem, com belíssimas imagens, nos mostrou que “Brasil vai colher mais uma safra recorde de soja. Clima ajudou e produção de soja deve chegar a 133 milhões de toneladas”. Várias cenas construídas para enunciar o sucesso, a importância do agro para o Brasil, a excelente produtividade. E um “analista de grãos” é o especialista que vai mostrar e reforçar que a safra recorde vai ajudar o Brasil a sair da crise, a superar os problemas econômicos. Todos felizes.

VACINA EM MODO MORNO

A repercussão sobre o começo da vacinação no Brasil está perdendo fôlego – até porque o número de vacinados é ridículo. A reportagem mostrou que o ritmo de vacinação no Brasil “ainda está abaixo do de outras campanhas”. Outras campanhas de outros governos, mas isso não foi explicitado. Tampouco a precariedade da vacinação por aqui foi escancarada. Como eu disse, tudo bem morno e se acomodando, sem arroubos, tangenciando os problemas. 

MENSAGENS DE MORO

Sem dúvida, a surpresa da edição. Ninguém esperava que a edição do JN trouxesse notícias sobre a liberação de sigilo de Lewandowski de parte das mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol e entre Dallagnol e outros procuradores. Mensagens essas que já estão com a defesa de Lula e têm causado certo furor nas redes sociais. E que comprovam as denúncias feitas pelo The Intercept em 2019. Foi bastante protocolar a matéria, de dois minutos, uma nota maior, afeita a tecnicalidades, dando espaço para Moro se defender dizendo que nada há de comprometedor e também para a nota da defesa de Lula reafirmando que havia uma trama para incriminar o ex-presidente. Enfim, tudo muito afeito a tecnicalidades, sem fundo nenhum – apenas o fundo neutro azul –, Bonner com voz grave e semblante sério. Nada que lembrasse aquelas cenas enunciativas dos vazamentos de 16 de março de 2016…

IN FUX WE TRUST

Momento vedete para o ministro Luis Fux, com enorme destaque para a fala dele na primeira sessão do ano do STF. Jair estava ao lado dele, e a reportagem destacou a fala de Fux a favor da vacina, contra os negacionistas, a favor da ciência. Tudo bem bonitinho e encenado para fingir que estão acuando Jair. Só fingiram mesmo. Ele ficou meio desconfortável às vezes, mas estava mais com cara de pouca paciência. A reportagem também destacou a fala do presidente da  OAB, que é bastante critico ao governo e a Bolsonaro. Foi aquele momento “instituições funcionando”. Para inglês ver.