Um dia histórico, marcado na edição, que não mostrou a participação de um ator que deveria ter, pelo menos, a participação especial: o presidente da República.

Solenemente, o JN ignorou Jair na primeira parte da edição, que lembrou a triste marca dos 200 mil e celebrou o feito do Butantan. O protagonismo na cena foi do governador de São Paulo, João Doria, que mostrou ao público a tão sonhada vacina e anunciou os resultados positivos. Da vestimenta sóbria e elegante à fala moderada e bem modulada, Doria deu os vários recados necessários e teve o palco à disposição.

“Hoje é um dia muito importante para o Brasil, para os brasileiros, para a vida e para a saúde. A vacina do Instituto Butantan tem eficácia de 78 a 100% contra a Covid-19, apontam os estudos no Brasil. As pessoas que forem imunizadas com a vacina do Instituto Butantan terão entre 78% a 100% menos possibilidades de desenvolverem a doença do que uma pessoa que não receber o imunizante”.

Doria fala a todo o Brasil, e não mais aos “brasileiros de São Paulo”, e destaca a gênese da vacina: “vacina do Instituto Butantan”, portanto, não há espaço para se falar em “vacina chinesa”. 

A reportagem prosseguiu com outras falas, como a de Dimas Covas, do Butantan, e mostrou em destaque os dados divulgados pelo Instituto comprovando a eficiência da vacina. Houve ainda o destaque para explicações sobre a chamada taxa de eficácia técnica da vacina, com falas de especilaistas como a epidemiologista Denise Garret (Sabin Vaccine) e do virologista Flavio Guimarães da Fonseca (UFMG), além de Dimas Covas explicando que esses dados serão encaminhados à Anvisa. E a reportagem conclui, pela voz dos especialistas (como tem sido desde a pandemia), que a taxa de eficácia da vacina deve ficar acima do mínimo estabelecido pela OMS. 

Para fechar, a reportagem mostrou trechos da entrevista de Doria à GloboNews em que ele diz que seria encaminhado no dia seguinte (08-01) o pedido de vacinação emergencial à Anvisa, com todos os recados marcados: 

“Eu tenho certeza de que a Anvisa, dada a circunstância de um país que já tem 200 mil mortes, infelizmente, tristemente registradas pela Covid-19, saberá agir de forma rápida e eficiente, sem perder a base da ciência para aprovar rapidamente essa vacina, que é a vacina do Butantan”

Mostra serenidade, apela para as questões técnicas em relação à Anvisa, sem qualquer disputa política explicitada, e marca o terreno da propriedade da vacina – ela é do Butantan. Enfim, joga como líder, sem cair no trivial da disputa com Jair.

Na sequência das matérias sobre o tema Covid e vacina, a entrevista coletiva dada pelo ministro Pazuello, que deu a informação de que o Brasil tem 300 milhões de doses de vacinas contra Covid garantidas para 2021 e negou que o governo esteja inoperante, mostrando um balanço sobre as negociações de vacinas.

Antes de detalhes da entrevista, editada para mostrar um ministro meio nervoso e perdido, o destaque foi para a MP provisória do governo,  que permite contratos sem licitação pra comprar vacinas e materiais de vacinação. Mas, além disso, o texto cria a obrigação de que o profissional de saúde, durante a vacinação, deve informar ao paciente que a vacina não teve registro na Anvisa, somente a autorização de uso emergencial, e deve explicar os potenciais riscos e benefícios do produto. Ou seja, na prática, a MP do governo cria empecilhos à vacinação. Foi o que ressaltou o ex-presidente da Anvisa, Gonçalo Vecina, que falou que a vacina foi aprovada, emergencial ou não, e “não existe meia segurança ou meia eficácia”. Vecina ressaltou que essa “casca de banana” da MP vai deixar a população receosa de tomar a vacina, e isso não deveria ser assim. 

Na sequência, trechos da entrevista de Pazuello mostrando dados e tentando explicar que o Brasil tem condições de fazer a vacinação – só não disse como – e atacando a imprensa. Ao final da reportagem, Pazuello reclamou da Pfizer e disse que ela ofereceu apenas 500 mil doses nos meses de janeiro e fevereiro e dois milhões de doses nos meses de março a junho. Renata, ao final, destacou a nota da Pfizer que informou que, em agosto de 2020, a empresa fez o primeiro contato com o governo brasileiro oferecendo 70 milhões de doses em dezembro. 

HISTÓRIAS DE QUEM PERDEU A VIDA PARA A COVID

No dia em que o país ultrapassa a marca de 200 mil mortos, oito minutos para apresentar não somente a evolução dos números, mas a vida por trás deles. Essa foi a proposta bem emotiva da edição. Após Alan Severiano mostrar os números que comprovam o avanço da doença no país todo, Bonner retorna e diz:

“Alan Severiano lembrou o seguinte: como essa tragédia se traduz em números, a gente vai perdendo naturalmente a noção de uma coisa que é fundamental, porque eram 200 mil vidas, 200 mil cidadãos, pessoas que fazem falta para pessoas, como o Alan disse. E ele pediu e nós vamos fazer isso, ele pediu para fazer uma homenagem que mostre o nosso respeito por essas pessoas”.

E então, a reportagem mostrou a história de cinco pessoas, de cinco regiões brasileiras, a partir do relato de seus entes queridos. Um quadro bem interessante, emotivo, destacando essa ideia de 200 mil vidas, 200 mil pessoas que importam para outras pessoas. 

Somente depois dos 8 minutos de reportagem é que aparece a menção ao presidente da República, em míseros 19 segundos. Renata informa que, por meio de uma rede social, Jair se manifestou pela morte de 200 mil pessoas. Ela apenas leu a manifestação de Bolsonaro, que lamentou, mas disse que a vida segue. E fechou aspas. Nenhuma foto, nenhuma reprodução do texto em rede social. Somente a leitura.      

JAIR, O PARCEIRO TRUMP E AS AMEAÇAS À DEMOCRACIA

O ataque de extremistas apoiadores do presidente norte-americano Donald Trump ao Capitólio foi amplamente divulgado. As reportagens marcaram as ações de Trump, mostraram as campanhas em redes sociais para insuflar a população contra a eleição, a disseminação de fake news, enfim, dimensionaram a responsabilidade, ou irresponsabilidade, do presidente. Mostraram também a indignação em todo o mundo, com a manifestação de diversos líderes repudiando os atos no Capitólio e a atitude de Trump ao não reconhecer a derrota na eleição e a vitória de Joe Biden.

Após 19 minutos de bombardeio contra Trump e defesa da democracia, a edição apresenta uma solução bem interessante para estabelecer a grande ligação entre os ogros do Norte e do Sul: “Como Donald Trump”, Jair Bolsonaro…

Renata informou:

“Na mesma conversa com apoiadores, o presidente Jair Bolsonaro ainda usou os acontecimentos espantosos nos Estados Unidos para voltar a questionar o sistema eleitoral brasileiro. Mas uma vez, sem apresentar nenhuma prova, como Donald Trump. Mais uma vez, falando mal da imprensa, como Donald Trump. Questionando até mesmo a eleição da qual saiu vitorioso, Bolsonaro disse o seguinte, abre aspas”.

E entra então essa imagem com a fala de Jair, lida por Renata. Observem que a imagem se repete há várias edições (já falei aqui sobre ela).    

Depois, Bonner complementa, marcando o sentido da ação de Jair e o avanço reiterado de sinal do presidente brasileiro. Um recado, talvez:

“Na sequência do ataque ao sistema eleitoral do Brasil, Bolsonaro foi além. Pouco mais de 12 horas depois das cenas da invasão do Congresso dos Estados Unidos, o presidente brasileiro se permitiu fazer uma previsão em tom de ameaça. Abre aspas”.

Mesma imagem, com o texto ameaçador:

 

E, claro, mostraram em seguida as “reações contundentes” de vários líderes e várias instituições, começando pela indignação virtual de Rodrigo Maia. Isso não implicou, claro, que a edição tocasse no assunto “impeachment”. Isso não é tratado, não é mencionado, nada é dito. 

Nas manifestações, houve espaço até para nota do PT, mencionada por Bonner:

“O PT, que disputou o segundo turno em 2018 com Bolsonaro, disse que ele age de maneira irresponsável ao atacar o processo eleitoral brasileiro e fazendo ameaças às futuras eleições. Segundo o partido, a manifestação é séria e grave e precisa ser apurada”.   

Claro, não esperem referência a atores importantes do partido. No JN, quem disputou a eleição com Jair em 2018 foi somente “o PT”, não foi o fofo do Haddad. Mas, de qualquer forma, já é uma entrada positiva que não se observava há anos. 

OBS: Apesar das fortes estocadas e do silenciamento imposto a Jair, que tem sido mostrado apenas como lambe-botas de Trump e disseminador de ataques e ameaças à democracia, o JN ainda mantém um tom equilibrado em relação a ele. Há certa desconstrução, mas muito tímida ainda, não condizente com o potencial do JN. De fato, penso que enquanto não houver um candidato de centro-direita viável, as forças neoliberais continuarão tolerando Jair. Tentando alijá-lo, mostrá-lo como incapaz, como ogro, como ameaça à democracia (em tese), mas não passando muito disso. Imaginem o poder de destruição da Globo se ela interrompesse programação ou colocasse na própria programação, nos telejornais, matérias insuflando manifestações contrárias ao governo, como feito num passado bem recente? Mostrando os mortos, as covas abertas, o descaso total do presidente, tudo muito emotivo e não contido? Só imaginem.