Logo após o retorno de Bonner e Renata à bancada, depois do Natal, o foco foi na memória de um pesadelo que estava de volta, trazendo a Covid, de novo, para ocupar quase todo o primeiro bloco do jornal, com a nova onda da doença que “lembra os momentos mais trágicos” da primeira onda, no começo do ano. Novamente em cena as imagens de covas abertas, muitos caixões, enterros solitários. Destaque para aglomerações e os hospitais lotados em todo o país, com imagens mostrando muitas festas, muita gente nas ruas, praias lotadas, bares lotados, muita gente sem máscara. Epidemiologistas e infectologistas, as vozes de autoridade para falar do novo ciclo, ressaltaram a gravidade e o potencial de contágio. 

Na edição de ontem (5-01), uma nova estrutura para tratar do agravamento do problema e mostrar a falta de perspectiva do Brasil: primeiro, exposição em detalhes da situação da vacinação em outros países, com destaque para as ações e as soluções; depois, exposição da situação das medidas restritivas de circulação e aglomeração em outros países; e por fim, a situação geral do Brasil, sem vacina e sem perspectivas de ação.

O tema Covid voltou a dominar todo o bloco, e a primeira parte da edição mostrou como vários países estão fazendo o processo de vacinação. O destaque de ontem foi para a Índia. A reportagem mostrou o protagonismo do país, a produção de vacinas e a preocupação com o mercado interno, com a população. Reportagem bem detalhada que deu, claro, muita ênfase ao papel do Instituto Serum – instituição privada –, “o maior fabricante de vacinas do planeta”, com produção de 1,5 bilhão de doses, para várias vacinas. O protagonismo e a pujança da empresa indiana foram ressaltados a partir de muitos detalhes com números, cenas da linha de produção, enfim, todo o aparato tecnológico a serviço de soluções para o mundo (a Índia vai produzir milhões de doses para outros países).

O instituto indiano, mostra a reportagem, está produzindo doses para países de baixa renda e já planeja aumentar os investimentos para ampliar a produção. E agora, a Índia se prepara para  começar, na próxima semana, a vacinar a população. Além disso, há vários acordos com diversos países para produzir. E para atestar a credibilidade da empresa indiana, nada melhor que um professor de uma universidade ocidental de ponta, no caso, Birmighan, salientando a eficiência do instituto e como é importante haver investimento de ponta para garantir o atendimento à população. Espaço também para mostrar outras empresas, de diversos setores mas que integram o esforço da vacinação, como uma produtora de frasquinhos para armazenar as doses. Todo mundo se preparando, investindo, ampliando. Nem é preciso comparar abertamente com o Brasil.

Houve destaque também para os vários países, de continentes diferentes, que já estão vacinando e têm propostas de um rápido processo, como é o caso de Israel, assim como países que estão adotando novamente medidas restritivas de circulação para impedir a propagação do vírus, como a Inglaterra. 

OBS: Claro, não houve – nem haverá – qualquer referência ao que era o funcionamento dos BRICS em outros governos, com o protagonismo do Brasil e a potência do bloco, mas é bom recordar e imaginar como seria a situação do país levando-se em conta que três, dos cinco integrantes do bloco, desenvolveram vacinas…

Somente após mostrar a ações em outros países e o desenrolar do processo da vacina é que a edição traz o retrato da situação (ruim) do Brasil. E a primeira matéria ressalta os números da média móvel de casos, com grande aumento da taxa de transmissão, aumento de mortes, aumento de casos. Tudo é desenhado, mostrado, há um bom balanço nos estados do país, com destaque para a região metropolitana de São Paulo e cidades do interior do estado, que já vivem situação bastante preocupante. 

Para reforçar a credibilidade não só das informações, mas do caos retratado, a edição traz vários especialistas realmente especialistas – infectologistas, epidemiologistas, pesquisadores, todos do setor público – para corroborar os dados, explicar o avanço da pandemia e enfatizar que a situação do país não é boa.  

Uma boa reportagem de seis minutos mostra que não basta apenas ter as doses da vacina – “A vacina é o item principal, mas ela depende de outros fatores para funcionar: eficácia – que é a proteção que a vacina oferece -, velocidade em que o vírus se espalha, e a quantidade de pessoas imunizadas”. Ou seja, garantir a vacina é o primeiro passo, e nem isso temos ainda. 

Todas essas informações são mostradas como se não houvesse ministro ou Ministério da Saúde. Ninguém é citado, procurado, mencionado, ouvido. Pelo teor das reportagens e as cenas construídas, a impressão que se tem é de um país sem comando.  

O SILENCIAMENTO DE BOLSONARO

E num país sem comando, Jair falastrão não tem espaço no JN. Nem o penteado novo dele foi destaque… 

Solenemente, o JN está ignorando o presidente, mostrando apenas o estritamente necessário, com o enquadramento que mostro abaixo:

De cara feia, sem direito a voz e espaço, assim fica Jair no JN

Uma foto de Jair (geralmente sisuda e feia), num quadro com a declaração esquisita do dia. Nada mais. Quando merece, há uma resposta irônica e elegantemente jocosa dada por Bonner (ou Renata). Na edição de ontem, Bonner arrematou:

“Os números oficiais das secretarias estaduais de saúde mostram que o vírus a que se refere o presidente Jair Bolsonaro está se espalhando pelo Brasil a taxas maiores desde dezembro. Esse vírus contaminou, ate agora, quase oito milhões de pessoas no país todo. E levou luto às famílias e aos amigos de mais de 197 mil cidadões, ou, CIDADÃOS, brasileiros”.  

Nada é polemizado. Jair é simplesmente negligenciado, como um incapaz que não deve ser levado a sério. Creio que ele terá cada vez menos espaço qualificado no JN. Até partirem para a desconstrução.   

ECONOMIA

O vaticínio de Jair sobre economia não foi problematizado, ou seja, a edição não mostrou cenas de um país “quebrado”, mas a perspectiva de certa retomada, de aquecimento de alguns setores e a previsão otimista do FMI de um crescimento de 3% para este ano. Para mostrar otimismo, matéria enorme sobre venda de carro – nada mais previsível, portanto. A reportagem mostra que, apesar da enorme queda no ano passado, as expectativas são boas, e o mercado de carro usado está super aquecido (me parece que, se a expectativa é mesmo boa, o aumento deveria ser na venda de carros novos…). Mas, enfim, a proposta é mostrar algum otimismo.

LULA

A matéria sobre a determinação para que a defesa de Lula tenha acesso imediato a mensagens apreendidas em operação da Lava Jato foi bastante sóbria. Uma nota leve, sem imagens fortes (nada de vermelho, fundo neutro). Segundo a nota, lida por Renata e Bonner, “a determinação ocorreu horas depois de o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, ter ordenado que o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho fosse notificado. O juiz tinha considerado que a liberação do material não era urgente e que, por isso, não precisava ser analisada durante o plantão do judiciário”.

Nenhum comentário posterior, tudo absolutamente protocolar.

E assim caminhamos até a eleição para presidência da Câmara…