Na escalada das manchetes da abertura do Jornal Nacional, o recorde de mortos e a decisão do STF sobre a suspeição de Sergio Moro tiveram destaque; o pronunciamento de Jair não. Não foi uma edição com muita dramaticidade, anão ser pelo tom forte das reportagens sobre a Covid. Em relação à votação, tom bem ameno.

Vou tomar então esses três pontos para blocar a reflexão sobre a edição de ontem do JN, que quer esquecer o outrora amigo Moro e fritar o inimigo da ocasião, Jair.

COVID – RECORDE DE MORTOS

O assunto estava na escalada e ocupou todo o primeiro bloco do jornal. Ou seja, imediatamente após o pronunciamento delirante de Jair Bolsonaro afirmando que temos vacinas e que todos os esforços estão sendo feitos para conter o vírus. Não há menção ao pronunciamento no primeiro bloco, apenas desconstrói, com as reportagens, todas as falácias do presidente falou.

Na abertura, Renata informa:

“Pela sexta vez, os brasileiros receberam a notícia oficial do governo de que terão menos vacinas disponíveis do que previa o cronograma anterior. Quase 10 milhões de doses a menos em abril. E depois de 8 dias desde o anúncio de que seria o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga tomou posse. Numa cerimônia fora da agenda e longe da imprensa”.

Entra a reportagem falando da pressão para acabar com a indefinição quanto ao Ministério que obrigou Jair a fazer uma cerimônia “às pressas”, um “ato a portas fechadas”, para dar posso ao novo ministro. A reportagem afirmou que “os estados estão pedindo socorro” e que, ao saudar o novo ministro, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde reforçou que o combate à pandemia tem de ser amparado na ciência. A reportagem destacou vários trechos da carta do CONASS com reiteradas críticas à falta de ação do governo no combate à pandemia. Em seguida, a informação de que prefeitos e governadores reforçaram a necessidade de vacinas e que, pela sexta vez, o ministério mudou a previsão total de doses que serão entregues (com muitas imagens de pessoas em filas aguardando), tendo saído da planilha 10 milhões de doses. Ou seja, a garantia que Bolsonaro fez no pronunciamento foi por água abaixo.

E sem vacinas, prossegue a reportagem, “os hospitais estão cada vez mais lotados”. Destaque também para os estoques de oxigênio em situação muito ruim e para a situação grave de falta de medicamentos – questão para a qual estados e municípios vêm chamando atenção. Ou seja, situação de caos, nada sob controle. Para fechar, a nota da Associação Médica Brasileira rechaçando o uso de medicamentos sem eficácia pra combater a Covid – caso da cloroquina, da azitromicina e da  ivermectina. Lembrando que a AMB, no em julho do ano passado, defendeu a autonomia dos médicos para receitarem  esses medicamentos. Parece que acordou, e na nota atual condenou o uso desses remédios dizendo que não têm eficácia comprovada e que a utilização deles deve ser banida. Além disso, a nota da AMB disse que faltam medicamentos para entubação de pacientes com Covid, que não há um calendário consistente de vacinação e que não há leitos de UTI.

Na sequência do bloco, as outras reportagens mostraram o caos em São Paulo (com recorde no número de mortos) e em várias cidades e regiões do Brasil, com a falta de leitos de UTI e o grande aumento do numero de casos.Muitos pesquisadores e especialistas falando sobre o assunto e também pessoas nas portas dos hospitais. E cada vez mais há depoimentos de pessoas que perderam parentes aparecem expressando sua dor e falando sobre aquela pessoa. 

Por fim, o balanço trágico do número de mortos, com o recorde de 3.158 pessoas – na apresentação, uma comparação com a queda das Torres Gêmeas, em NY em setembro de 2001, quando morreram 2.977 pessoas.  

Todo o primeiro bloco foi, portanto, para dimensionar o caos da pandemia e a falta de ação efetiva do governo, em 22 minutos de reportagens.  

SUSPEIÇÃO DE SERGIO MORO

A votação do STF sobre a suspeição de Sergio Moro ocupou todo o segundo bloco do JN, cerca de 21 minutos. A reportagem sobre a votação no STF manteve um tom relativamente equilibrado, sem apelos à dramatização (o que já ocorreu em vários outros momentos). Na abertura, o anúncio foi protocolar (mas pincelando a possibilidade de novo julgamento no futuro – ou seja, a fatura não estava totalmente liquidada):

“A segunda turma do Supremo Tribunal Federal concluiu hoje o julgamento sobre a suspeição do ex-juiz Sergio Moro na ação que condenou o ex-presidente Lula no caso  do triplex do Guarujá. Por 3 votos a 2, Moro foi considerado parcial. As provas vão ser anuladas e não poderão ser usadas num eventual novo julgamento”. 

A questão da “anulação” das provas foi mencionada mais de uma vez, levando a uma interpretação de dúvida em relação à lisura da votação – na verdade, pelo julgamento, Moro suspeito, não há provas que condenem o ex-presidente. 

Continuando, a reportagem mostrou o começo do julgamento, ainda em 2018, com os votos contrários de Fachin e Cármen Lúcia. 

Vou destacar alguns aspectos que acho mais relevantes:

Votos

Houve muito espaço para o voto do ministro Nunes Marques, cerca de 5 minutos, e nenhuma crítica à confusão mental e conceitual que foi o voto do indicado por Bolsonaro. A reportagem destacou sobretudo a fala do ministro sobre as mensagens apreendidas na Operação Spoofing, que não poderiam ser usadas pela defesa de Luka porque foram obtidas de maneira ilegal por hackers – essa é uma pedra cantada pelo JN desde a primeira denúncia feita pelo The Intercept, e m junho de 2019. Então, isso foi muito explorado, dando espaço até para a verborragia tola do ministro Nunes Marques de que usar a troca de mensagens entre o juiz e os procuradores seria como “legalizar a atividade de hacker no país”, levantando dúvidas sobre a veracidade das mensagens – tese defendida por Moro e Dallagnol e difundida à época pelo JN. Enfim, a luz sobre o discurso inócuo e capenga do ministro Nunes Marques serviu como apoio para essa discussão – que não era, como lembrou o ministro Gilmar Mendes, o ponto em discussão.

Depois, houve ainda espaço para a réplica de Gilmar Mendes, com destaques para pontos relevantes – na réplica, Gilmar destrói a pífia argumentação de Nunes Marques e relembra o seu voto com todas as acusações feitas a Sergio Moro. A reportagem mostra isso.

Depois, a fala de Lewandowski, o voto de Carmen Lúcia e a nova entrada de Fachin.

E Bonner finaliza, sem grandes emoções, mas insinuando a possibilidade de novo processo: 

“A decisão da Segunda Turma por 3 x 2 de julgar parcial o então juiz Sergio Moro anulou todos os procedimentos feitos durante o processo do triplex do Guarujá. Como esse caso foi encaminhado para a justiça do Distrito Federal pelo ministro Edson Fachin, uma nova apuração vai ter de começar do zero, o que inclui eventuais novas buscas, quebra de sigilo e outros atos que possam ajudar na coleta de provas”. 

Imagens

O fundo vermelho com um cano carcomido por onde escorre muito dinheiro parece, por ora, coisa de um passado distante. Nada que remeta a ele, nem quando a reportagem elencou os motivos do processo contra Lula. As imagens do ex-presidente continuam positivas – e um detalhe interessante é que as mais usadas são as do pronunciamento de 10 de março. Mas mesmo as antigas são favoráveis. 

O ex-juiz Sergio Moro aparece pouquíssimo, em breves imagens, basicamente neutras. Dallagnol aparece uma vez muito brevemente. Nenhum dos dois tem qualquer fala, mesmo indireta.

Abandono do barco

Parece que o JN está fazendo aquela limpeza e apagando todos os vestígios de proximidade com Moro e com a Lava Jato. Tudo bem sutil, pouca exposição, uma espécie de abandono à francesa rsrs. Essa edição em nada lembra a do dia 24 de abril do ano passado, por exemplo, quando Moro saiu do Ministério e parecia que era o grande candidato apoiado pela mídia. Nada mostrou a “importância” do juiz. Claro, também não se discutiu toda a conduta perniciosa dele, nenhum menção a vazamentos, por exemplo. Mas também não houve defesa. No melhor estilo “vamos esquecer o passado”.  

Fim sem nenhum glamour.    

PRONUNCIAMENTO DE JAIR

O assunto foi mencionado no ultimo momento do ultimo bloco. A matéria sinalizou uma “mudança de postura” de Bolsonaro, que passou a pedir vacina.

Para abrir, a cutucada:

Renata: “Nesta terça-feira em que o Brasil ultrapassou 3 mil mortes por Covid em um único dia, o presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional. Ao longo desses 12 meses de pandemia, os brasileiros viram o presidente pôr em dúvida a eficácia da vacina do Butantan, que chamava de vacina chinesa. Mas no discurso de hoje, Bolsonaro disse que sempre foi a favor das vacinas.

Bonner (com certo ar de deboche): “O presidente também se notabilizou por provocar aglomerações e por desprezar o uso de máscaras. Mas hoje, afirmou que sempre fez tudo para combater a pandemia. O presidente não mencionou a sexta diminuição do número de doses de imunizantes divulgada hoje mesmo pelo Ministério da Saúde. Ao contrário: ele disse que as vacinas estão garantidas”. 

Renata: “O presidente se solidarizou com as famílias das vítimas e, numa mudança radical de tom, finalmente defendeu a vacinação em massa”.

Na sequência, trechos do discurso de Jair. E logo depois, Bonner informa que no momento do pronunciamento teve panelaço nas capitais e em várias regiões do pais. E segue-se então o registro de panelas batendo, pessoas gritando, sem comentários dos apresentadores. Apenas o som das panelas por um minuto.

Para fechar, o JN projeta seu ethos de jornalismo comprometido com os fatos e anuncia a indicação do documentário “Cercados” a um festival do Canadá. Trechos do documentário são exibidos, e a bancada mostra sua solidariedade às famílias enlutadas.