A edição dá algumas alfinetadas providenciais em Bolsonaro e no modus operandi do bolsonarismo. Não são pancadas muito fortes, mas temas reiterados com bom potencial – inclusive a pouca luz sobre o assunto 89 mil na conta da primeira-dama.

Como eu já disse, cozinhando em banho-maria.

Vou mostrar por blocos da edição.

1º BLOCO

O tema Covid continua a abrir o jornal, mesclando abordagens de alerta e cuidado com abordagens positivas, de superação do problema. O balanço da média móvel foi levado para esse começo também. Portanto, a primeira matéria da edição é sobre o caso de reinfecção explicado pelos pesquisadores de Hong Kong (o primeiro caso). Matéria bem grande, destacando o estudo, o problema, mas sem muita carga dramática, matéria de alerta, na dosagem certa.

Logo na sequência, o quadro média móvel ressalta que o país já tem mais de 115 mil mortos, mas traz um alento: há 13 dias, a média está se mantendo num patamar um pouco abaixo das mil mortes diárias, o que sinaliza um indicativo de queda – uma leve forçada no tom positivo da situação no país (que, na verdade, não abandona o tal platô), ainda que mantendo certo equilíbrio.

Depois, mantendo o tom otimista, a boa notícia que vem de fora (pra incrementar a discussão sobre volta às aulas): pesquisa do Reino Unido diz que é mais fácil as crianças se contaminarem em casa do que na escola, portanto, o governo britânico quer as crianças de volta às aulas. Pesquisa com brechas estranhas porque foi feita quando as escolas estavam com funcionamento ainda precário. Foi bem destacada, mostrou os cuidados necessários, enfim, uma boa peça pra justificar talvez a insistência de alguns governos por aqui (tipo São Paulo).

Logo depois, uma matéria bastante destacada sobre os desafios do ensino online com foco em iniciativa da UFRJ: mais de 3 mil alunos da UFRJ receberam ajuda da universidade para acompanhar aulas online. Segundo a reportagem, de 3 minutos, bem ampla, cada aluno recebeu R$ 1 mil para comprar um computador e acompanhar as aulas a distância. A UFRJ também distribuiu chips de internet. Os alunos precisaram comprovar a compra dos equipamentos.

E para fechar, aquele momento superação, tudo voltará ao normal: sai F1 entra Paralimpíadas. Falta um ano para as próximas, e os atletas brasileiros encontram dificuldades para os treinamentos.

2º BLOCO

O bloco começa com decisão de Toffolli de negar a anulação de buscas e apreensões no gabinete do senador Fernando Bezerra Coelho.

Mas o grande destaque foi a matéria bem completinha sobre a cidadã de bem Flordelis, que virou ré acusada de matar o marido, o pastor Anderson do Carmo envenenado (certamente ela assistia aos episódios de CSI pra saber tão bem como envenenar alguém aos poucos). Seis filhos e uma neta dela foram presos, acusados também. Ela não foi presa porque é deputada (de fato, a bancada é um primor).

Foram duas reportagens de 4 minutos cada uma. A primeira mostrou a acusação em si. A segunda foi destinada a mostrar que a “imagem da família exemplar desmoronou”… A reportagem mostrou que “Família que Flordelis formou era considerada modelo de amor e solidariedade”. Essa imagem da solidariedade era super divulgada nas redes.

E então, a reportagem se dedicou a mostrar a podridão por trás da família-modelo.

Mostrou história das adoções, já que ela tem 55 filhos adotivos – ressaltando as diferenças no tratamento dos filhos, as questões com o marido na administração da grana, as falsas campanhas. Foram 4 minutos de muita informação. Lembrando que a nobre deputada é bolsonarista.

Logo na sequência, mais um capítulo de “Flávio e a fantástica loja de chocolates”. Uma beleza de lucratividade. Segundo a reportagem, “o Jornal Nacional fez um cruzamento dos dados dos extratos bancários da quebra de sigilo da loja de chocolates do senador Flávio Bolsonaro e encontrou essa coincidência”.

Os extratos (aos quais o JN sempre tem acesso) mostraram que Flávio (vejam só a “coincidência”) fazia retiradas da loja sempre que havia aqueles maravilhosos depósitos fracionados e iguais – tipo 10 depósitos de 3 mil, totalizando 30 mil, ele então retirava tudinho.

Claro, além dos detalhes dos extratos – com a retiradas coincidentes –, a reportagem mostrou muitas fotos de Flávio alegre com os produtos da fantástica loja de chocolates. Segundo o MP, após o cruzamento dos extratos, o objetivo de lavagem de dinheiro ficava muito claro (espertos, né? Ninguém ia imaginar… afinal, loja de chocolates é algo tão lucrativo). A cifra também foi destacada – entre 2015 e 2018, foram sacados 978.225,00. Quase um milhão em três anos. Lucro de mais de 300 mil por ano com loja de chocolate. Fico sempre ansiosa pelos próximos capítulos rsrs.

Pra fechar, a história sempre mal contada de Ronaldinho e o irmão no Paraguai (pagam fiança enorme, são soltos, nada se quer provar… enfim).

E o boletim do tempo, porque todo mundo está fissurado em saber se vai nevar ou não por aqui – 3 minutos.

3º BLOCO

A matéria sobre a convenção do Partido Republicano, que abriu o bloco, trouxe algumas boas cutucadas em Trump – ressaltando aspectos bem semelhantes aos praticados por aqui. A reportagem ressaltou que ninguém usava máscara na convenção, que Trump insinuou fraude na eleição (se ele não ganhar, é porque houve fraude – alguém já ouviu falar dessa história?).

Depois, novo ataque policial a um Home negro nos EUA (ele levou 7 tiros pelas costas). E amei protestos.

Ativista russo já no hospital alemão – que comprovou que ele foi envenenado.

E então, a primeira cutucada direta no governo de Jair: o Governo quer comprar satélite para monitorar a Amazônia, TRABALHO QUE JÁ É FEITO PELO INPE (em maiúscula porque foi destacado pela reportagem). A matéria é bem completa, com especialistas ouvidos e ex-diretores do Inpe. Segundo a reportagem, os R$ 145 milhões para comprar o microssatélite vão vir do fundo de combate à corrupção, que é abastecido com dinheiro recuperado em acordos da operação Lava Jato. A questão do meio ambiente é uma pedra no sapato. E vai continuar.

O tom da matéria foi bem claro e veio pela voz de um pesquisador ex-diretor do Inpe: não faz sentido gastar dinheiro para fazer um trabalho que o Inpe já faz. Hamilton Mourão apareceu sem destaque para dizer que o Inpe deve ter autonomia. Mas o ex-diretor explicou que o satélite em questão é feito para detectar gelo – e que vai levar muito tempo para detectar as queimadas, sendo que o Inpe já tem instrumentos que fazem esse monitoramento. Ou seja, estão jogando dinheiro fora fingindo que vão fazer um trabalho decente.

Na sequência, matéria sobre limite de gastos (que 11 estados não cumpriram) e a cantilena da necessidade de ajuste e de reforma. nada muito destacado. Além do balanço (em breve nota) do fechamento e mais de 135 mil lojas.

4º BLOCO

O bloco nos traz então a referência às falas simpáticas de Bolsonaro aos jornalistas. A primeira matéria informa que sites bolsonaristas “disseram que o presidente havia reagido a uma outra fala, de uma pessoa dizendo que iria visitar a filha dele na cadeia. O presidente compartilhou vídeo, mas a versão era falsa”, retomando a pérola “minha vontade é encher sua boca na porrada”. E a matéria mostrou que Jair usou e abusou dessa versão nas redes sociais. A reportagem cutucou, mostrou bem, mas não bateu como poderia – acordo é acordo, por ora.

As imagens e as falas de Jair foram destacadas, ele deixado à vontade para falar. Mas é interessante notar que, mesmo deixado à vontade, ele está se controlando um pouco. Não é o Jair raiz. Acordo é acordo.

Depois, num evento sobre Covid promovido pelo Planalto (o governo pretendeu “comemorar” a possível queda da doença),”Bolsonaro volta a atacar a imprensa. Ao relembrar que salvou a vida de um colega, no Exército, Bolsonaro fez referência a uma declaração polêmica, também sem nenhum respaldo na ciência, de que atletas têm mais chance de se curar da Covid, e, mais uma vez, atacou a imprensa”. E então a reportagem mostrou a fala sobre os “bundões” da imprensa. Mas o JN não mencionou a reação do apresentador Datena (pasmem!) contra a fala de Jair.

Ao fim da reportagem, de volta à bancada, o silêncio com suspiro de Bonner diante da ogrice presidencial.

Para fechar, matéria grande sobre hospitais articulares que começam a permitir a visita a pacientes com Covid – o que foi questionado pro especialistas.

E o “até amanhã” de Renata é dado com o número de mais de 115 mil mortos estampados na tela.