Nenhuma grande novidade a não ser a ótima matéria sobre os “guardiões do Crivella”.

Espaço também para a “perfumaria”, sempre necessária quando não dá para explorar outros assuntos emblemáticos. Vou destacar então esses pontos principais da edição.

Covid boas notícias

Com uma alegria bem equilibrada, Renata abre a edição anunciando: “A gente abre a edição de hoje com os dados atualizados do consórcio de veículos de imprensa. Márcio Gomes mostra que a média móvel de mortes no Brasil é a menor em mais de três meses!  Boa notícia, Márcio”.

E entram então os dados mostrando a queda – “uma queda lenta, mas uma queda”, salienta Márcio Gomes. Enfim, foi essa a tônica. Há uma tendência de queda que já se mostra, mas o fato é que ainda estamos no tal platô. Na média por estados, segundo a reportagem, somente quatro estados estão em alta – os demais estão em tendência de queda ou estabilidade.

É pouco para festejar, mas, após mais de 5 meses de quarentena, os otimismos vão sendo forjados a partir de qualquer pequena mudança. E a reportagem foi um pouco nessa linha – certo otimismo, mas não euforia. Curiosamente – ou não – desaparece o poder público, em qualquer nuance. O Ministério da Saúde não é mais fonte do JN (há muito tempo…), e os governadores que apareciam estão sumidos – a vedete era sempre Doria, que não está mais tanto em evidência.

Agro é Pop

Reportagem sob encomenda para mostrar a pujança do agronegócio brasileiro que, “mesmo com a pandemia, deve se expandir neste ano”. Segundo a reportagem de 3 minutos, o agronegócio brasileiro conta com satélites e inteligência artificial para produzir mais. E a reportagem mostrou então as grandes lavouras usando a tecnologia para garantir a plantação, para tomar decisões técnicas. As máquinas ultramodernas, climatizadas, foram apresentadas em detalhes nas enormes lavouras, com mapa de   produtividade, condições climáticas etc. A imagem mostra a grandiosidade das máquinas na lavoura.

Agro é pop…

A fonte citada foi a Associação Brasileira do Agronegócio, que informou ainda que há mais de 300 startups que já investiram mais de 100 milhões de reais em novos sistemas inteligentes para o campo – e a reportagem apresentou um deles, que monitora a produção desde a origem. E, claro, o engenheiro responsável ressaltou a preocupação com a  sustentabilidade e o certificado de origem, garantindo que a produção foi feita em área ambientalmente sustentável, que não foi feita em área de reserva indígena, mostrando que o agro é realmente pop e está atento às exigências ambientais. 

Reportagem super bem desenhada para ressaltar as qualidades do agronegócio, que respeita o meio ambiente e investe na tecnologia para aumentar a produção e, portanto, se distancia de elementos pouco aceitáveis no exterior. 

Salário mínimo

Cutucadinha de leve no governo ao anunciar que, enviado o orçamento ao Congresso, “o Governo propõe para 2021 salário mínimo sem aumento real de valor pelo 2º ano seguido”. 

A reportagem destacou o valor do mínimo e a informação de que não terá reajuste acima da inflação, apenas o aumento de 22 reais. Um ponto positivo, mas a explicação foi essencialmente técnica, não ficando clara para o cidadão comum – afinal, o que significa mesmo que o salário mínimo não terá aumento real de valor? Qual o impacto disso no orçamento das famílias? Dos trabalhadores? Poderia ter feito, como em outros momentos, uma comparação em relação ao poder de compra, o que comprava e o que passará a comprar, por exemplo. 

E então, o foco foi em outros aspectos do orçamento, mostrando os gastos do governo, os ministérios que terão cortes – como Ministério da Saúde (que perderá dois bilhões), Educação (perderá 1,8 bilhão) e Ciência e Tecnologia (perderá 1 bilhão). 

A segunda cutucadinha (muito leve) foi na informação de que “mesmo com a falta de dinheiro, o governo Bolsonaro decidiu privilegiar a defesa. No ano que vem, terá 1 bilhão e 600 milhões a mais, em comparação com este ano, para modernização das Forças Armadas, compra de aviões, helicópteros, blindados de combate, para o programa de submarinos e também para outras despesas não obrigatórias”.

Apenas isso. Não problematizou, em nenhum momento, o que significa retirar dinheiro da Saúde e da Educação e levar para a Defesa investir em programa de submarino e blindados de combate… 

Ficou apenas nos números. O secretário de Fazenda apareceu pra dizer que o orçamento não inclui o programa Renda Brasil – que está sendo, na verdade, alvo de embate entre Guedes e o presidente. Mas isso também não foi problematizado. 

Em relação ao censo, outro embate que está em evidência, o secretário informou que há verba destinada para isso. 

Depois, o foco foi no rombo das contas públicas e no teto de gastos. 

Além do secretário, outra fonte bem ouvida foi o economista Gil Castelo Branco, da Associação Contas Abertas, para dizer que a situação fiscal do país “é dramática”. Nenhum economista mais de peso ou de alguma universidade pública foi ouvido para diagnosticar a situação.    

Volta às aulas

A questão das volta às aulas tem sido colocada em evidência no jornal. Dessa vez, a partir de pesquisa do Unicef, 12% dos estudantes da rede pública do país não receberam as tarefas em casa. No Nordeste, essa taxa é de quase um a cada cinco alunos. Ou seja, 8 milhões de estudantes estão sem tarefa escolar desde a suspensão das aulas. 

A reportagem de 3 minutos mostrou a iniciativa de uma professora da Educação Infantil, que prepara aula para os alunos. Mostrou também um pai divorciado que cuida dos filhos e reclamou que o ano foi praticamente perdido para eles. E o caso de outra professora, já repercutido por outro jornal (não é caso novo), que respondeu a uma aluna, criança, que pedia desculpas por não ter feito o dever pois ninguém quis fazer com ela. A professora mandou o recado dizendo “meu amor, vou fazer com você quando retornarmos”. Tudo muito bonitinho e tocante, mas as questões de fundo da educação nem são mencionadas.  

De novo, a fonte principal foi alguém do Todos pela Educação para dizer que há vários impactos, vários problemas, falta o vínculo com a escola etc. Nenhum pesquisador ou professor ligado à universidade pública é ouvido.

E cadê a fonte oficial? O Ministério da Educação tem a dizer o quê? Como fica a situação desses alunos?

Guardiões do Crivella

 Sem dúvida, a matéria mais interessante da edição. Uma bela reportagem de 9 minutos mostrando   parte do que a extrema-direita é capaz de fazer estando no poder. Talvez seja tarde.

Pois bem, a reportagem mostrou que “Funcionários da Prefeitura do Rio tentam impedir a imprensa de mostrar queixas de cidadãos. Os agressores são contratados da prefeitura, recebem salários pagos pelo contribuinte para vigiar a porta de hospitais e clínicas para constranger e ameaçar jornalistas e cidadãos que denunciam os problemas na saúde do município do Rio”. 

As cenas são realmente bem impressionantes. Pra começar, uma senhora está falando à reportagem, reclamando que não consegue uma transferência. De repente, aparece uma voz” “Seus ridículos, fazendo reportagem tendenciosa. É Bolsonaro”. Mostram então imagens dos dois homens, truculentos, indo em direção à repórter. Depois, outra reportagem, no mesmo hospital, é interrompida da mesma forma. 

Entra então o repórter Paulo Renato Soares para mostrar que os ataques são organizados “e acredite: pelo poder público. Os agressores são contratados pela prefeitura. Recebem salários, pagos pelo contribuinte, para ficar na porta de hospitais e clínicas e constranger jornalistas e cidadãos que enunciam os problemas na saúde do município do Rio”.  Os principais “vigias” são mostrados na tela, com nome, sobrenome e função. Começa a reportagem, no hospital municipal Salgado Filho, e imediatamente aparece um “vigia” interrompendo a fala do entrevistado.

A reportagem também mostrou que esses “vigias” fazem parte de três grupos de WhatsApp que reúnem funcionários públicos e que têm a missão de “tirar o direito das pessoas de se manifestar e de se informar”. E a reportagem destacou o conteúdo dos grupos Assessoria Especial GBP, Plantão e Guardiões do Crivella, com a rotina de “trabalho” dos “vigias”, que “batem ponto” mostrando selfies quando chegam aos hospitais designados.  Os “vigias” relatam tudo o que ocorre na porta dos hospitais e estão sempre com celular na mão, filmando e enviando mensagens.

No grupo, os que “falham”, ou seja, não impedem a realização das reportagens da Globo ,são questionados e cobrados. Na hora exata em que sai a reportagem que conseguiu furar o bloqueio, há mensagens no WhatsApp questionando por que não conseguiram derrubar a  matéria. Foi exposto também o responsável por controlar os grupos, Marcos Paulo Luciano, que tem várias fotos com o prefeito Crivella, com quem trabalhou como missionário na África e no Nordeste e de quem hoje é assessor especial, com salário de mais de 10 mil. 

Segundo Bonner, a prefeitura não negou a existência dos grupos. Mas o prefeito não foi questionado. 

OBS: Essa denúncia é muito impressionante porque mostra um aparelhamento do Estado construído de forma a intimidar e perseguir. Que tem uma organização e uma capilaridade muito efetivas. A reportagem é muito boa. A Globo diz que há uma perseguição à imprensa, mas, na verdade, a perseguição é praticamente direcionada ao grupo. Claramente, essa prática se liga a várias outras que revelam esse modus operandi dos fundamentalistas no poder… vejamos se há desdobramentos.  

Nada sobre

  • Nova indicação de Pazuello para o Ministério da Saúde
  • Vacina de Cuba
  • Praias cheias no litoral paulista e no Rio