O número trágico de mortos em 24 horas não mexeu no arranjo de um acordo para fingir normalidade e tutelar Jair Bolsonaro até talvez as definições para as eleições de 2022. Nada de linha do tempo ou editoriais mais agressivos para tentar explicar como e por que chegamos até aqui, com números assustadores, e pior: sem qualquer perspectiva de mudança ou melhora.

Interessante observar também que não houve qualquer menção à data de 31 de março (a não ser uma fala rápida do novo ministro da Defesa, que não ovacionou a ditadura).

Vale ressaltar ainda que o presidente oficial da República quase não apareceu na edição, especialmente na matéria sobre a reunião do arranjado Comitê para tratar da Covid no Brasil. 

Vamos a alguns detalhes

COVID

Apesar do recorde de mortos em 24 horas, a edição optou por uma abordagem tendendo à positividade. Assim, a primeira matéria da noite e a abertura do tema Covid foi a aprovação, pela Anvisa, do uso emergencial da vacina da Janssen, braço da Johnson & Johnson no Brasil. Foram dois minutos de matéria, com uma fala bem grande da diretora da Anvisa justificando a aprovação. E também a informação de que diretores da agência m rejeitaram, por unanimidade,  o pedido de importação emergencial, feito pelo Ministério da Saúde, da vacina Covaxin, um dia após negar o certificado de boas práticas para a farmacêutica indiana a Bharat Biotech, que produz a vacina.

Ao longo da edição, ainda no primeiro bloco, outras matérias trataram o assunto, como:

  • Pfizer e Biontech anunciam que vacina mostrou 100% de eficácia em jovens de 12 a 15 anos (24 segundos)
  • Butantan entrega mais 3,4 milhões de vacinas (13 segundos)
  • Presidente da França anuncia terceiro lockdown nacional (21 segundos)
  • Variante do coronavírus semelhante à sul-africana é identificada em Sorocaba (2 minutos)

 Como veem, a maioria bem breve, sem muita polêmica ou estardalhaço ou repercussão.

O balanço de casos e número de mortos, a média móvel, apareceu bem depois, foi a quarta reportagem da edição, com três minutos. E começou a falar, vejam bem, no “ritmo da vacinação no Brasil”. Não destacaram, em primeira mão, o vergonhoso número de quase 4 mil mortes em 24 horas.  

LIRA DOMINANDO O PALCO 

E numa reportagem de seis minutos, o presidente da Câmara, Arthur Lira, apareceu quase como o presidente efetivo. Ele estava numa espécie de pronunciamento após a primeira reunião do Comitê de Combate à Covid – ele, Pacheco e o ministro da Saúde. Sem Jair. 

Arthur Lira, Rodrigo Pacheco e o ministro Queiroga

Lira fez um questionamento no mínimo estranho em relação à diferença entre doses de vacinas enviadas e aplicadas nos brasileiros, insinuando uma certa culpa de estados e municípios. Bem estranha a colocação: “Por que o Brasil distribuiu 34 milhões de doses da vacina e nós só temos 18 milhões de doses aplicadas?”. E aí disse que solicitava que o Ministério fizesse um controle rígido desse controle. A reportagem mostrou então que os números apontados pelo Consórcio de Veículos de Imprensa não são exatamente esses, mas afirmou que há uma diferença de 11 milhões de doses (entre o que foi distribuído e o que foi efetivamente aplicado.   

O JN pelo menos ouviu especialistas que explicaram os motivos para o ritmo diferente entre a oferta de vacinas e a aplicação das primeiras doses na população, ressaltando as dificuldades no acesso (país muito grande), a necessidade de doses de reserva técnica, para a segunda dose. A reportagem, apesar de ter tentado mostrar as particularidades dos casos e a falta de um cadastro específico que deveria ter sido eito pelo Ministério da Saúde, não problematizou muito a declaração esquisita de Lira. Mas, como aspecto positivo, fica a defesa feita por fontes como   Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização, que afirmou claramente que o Ministério deveria ter feito um cadastro decente, e de Gonçalo Vecina, ex-diretor da Anvisa. Os dois bastante críticos.   

Logo na sequência, outra fala em destaque de Lira, em outra matéria, dessa vez sobre a votação no Congresso, como urgência urgentíssima, da possibilidade de empresas privadas poderem comprar vacinas. O projeto é apoiado por ele e é uma excrescência. A reportagem de cinco minutos  começou bem chapa branca, mostrando a fala de Lira, ao lado de Pacheco e Queiroga, defendendo essa possibilidade e dizendo que não há conflito de interesses. Uma fala enorme. E também em seguida a uma fala do diretor de clínicas de saúde (que fonte mais atrelada impossível) em entrevista à GloboNews defendendo essa possibilidade e dizendo que se a vacina vai para quem pode pagar, sobra mais para quem não pode – raciocínio bem cínico.. 

A reportagem também mostrou que empresários ligados a Bolsonaro e a Lira defenderam essa possibilidade. Por fim, num contraponto ainda pífio para a gravidade da questão, o jornal mostrou o posicionamento dos laboratórios – que não vendem vacina para empresas –, trouxe falas importantes de especialistas qualificados, como Sérgio Cimermam e Julio Croda, a dizerem que essa possibilidade é absurda, aumenta a desigualdade, cria castas e enfraquece o sistema nacional de imunização. Explicitou também o posicionamento claro do Conselho Nacional de Saúde que afirma que essa mudança na lei é um “fura-fila oficializado” ou “camarote vip da vacina”.   

Detalhe: Na GloboNews, o assunto foi bastante debatido, problematizado, mostrado como absurdo. Um avanço. Que significa que Lira está sendo talvez tolerado enquanto mantém Jair na corrente

DESEMPREGO E AUXÍLIO EMERGENCIAL

Já no meio do jornal, o incômodo assunto desemprego teve de aparecer. Três minutos burocráticos para dizer que o Brasil tem 14 milhões e 300 mil desempregados. Mostrou um personagem, Vitor, formado em história, que só conseguiu emprego como garçom, para ilustrar, e também as dificuldades das pessoas pra conseguir emprego, além dos milhões de desalentados. A reportagem fala que “muitas pessoas conseguiram voltar a trabalhar nesse período. Mas a grande maioria teve que se virar. De cada 10 brasileiros que encontraram uma ocupação, 8 estão na informalidade”. Somente assim, bem superficialmente, sem dimensionar o que é essa “informalidade” e o que significa “ter que se virar”. 

 E, claro, a culpa de tudo isso é da pandemia… não é da falta de política econômica, da demência do ministro da Economia, da demência do governo. Não. A vilã é a pandemia. O Brasil vem amargando o aumento do desemprego desde que Bolsonaro e Guedes assumiram, mas a culpa é da pandemia.  Paulo Guedes não aparece em nenhum momento, para dizer nada, nem é citado, Aliás, não há fonte oficial ou citação a fontes oficiais pra tratar do assunto, que é sério e se agrava. 

Então, logo na imediata sequência, para tirar um pouco o peso do problema que não encontra respaldo de solução na pífia equipe econômica, vem o anúncio da miséria emergencial, ou melhor, do auxílio emergencial que o governo passa a pagar em abril. Nesse momento, Jair aparece para dizer que não é muito, mas é o que “a Nação” pode pagar. Cretino que chama, né?

Detalhe 1: a miséria emergencial é de 250 reais. Por mês. Nem todo mundo que recebeu da outra vez vai receber agora. E apenas uma pessoa por família tem direito. Mas aparece como algo bom. 

Detalhe 2: nadinha que lembre o repertório “crise econômica”. Isso não tem vez, não se coloca, não se insere, não se insinua. Bem diferente de outros momentos, em que o desemprego estava em 4,8%, o país tinha, 1 milhão 128 mil desempregados. Mas a “crise econômica” estava sempre presente nas edições.  

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Resumindo, o Combo Brasil é o seguinte: temos uma crise sanitária assustadora com uma crise econômica igualmente assustadora. Tudo ao mesmo tempo agora. Mas a edição do JN não quis dimensionar muito bem esses pontos agora. Não jogou a tinta necessária (ou esperada). O acordo vigora no momento, e o jornal também parece viver uma crise de identidade. À espera de um milagre, de uma acomodação rumo à civilidade ou, quem sabe, de um nome ao Centro para chamar de seu… Aguardemos.