O balanço do segundo turno das eleições municipais no JN evidenciou aquilo que já vinha se delineando em termos do discurso midiático: a construção simbólica de uma ideia de centro e a eliminação de polos – à esquerda e à direita. Obviamente, o contexto é bastante dinâmico, sobretudo no Brasil, mas essa ideia de centro será o mote que vai orientar a construção da narrativa para 2022, não tenho dúvida. 

Simbolicamente, o centro projetado pelo discurso midiático será aquele capaz de aglutinar de ACM Neto a Luciano Hulk, passando por Rodrigo Maia, Eduardo Paes, Bruno Covas, Joao Doria e Sergio Moro, apenas para citar alguns. Não haverá qualquer tipo de nuance, e a ideia central será a de que esse espectro busca o equilíbrio, a acomodação, o progresso do país, defende a ciência, é contra radicalismos, pois o brasileiro está cansado e quer a rotina de volta. 

Esse grande espectro que canaliza o desejo nacional, portanto, elimina a ação e atuação dos polos  – esquerda e direita –, que não cabem mais nessa proposta equilibrada de reconduzir o Brasil à linha da civilidade e do progresso. Portanto, raramente ouviremos mais referências a um “Centrão”, essa ideia perniciosa, ou conceitos como centro-direita. Tudo é Centro, tudo é equilíbrio, foi esse o recado das urnas. 

Esse centro ressignificado será o novo grande repertório – ao lado da corrupção, que não vai desaparecer, mas pode perder força – na narrativa da retomada da reconstrução nacional pós-pandemia e com vistas a 2022. 

E a edição do JN de ontem (30-11) marca muito bem esses novos arranjos no jogo e essa nova arquitetura da narrativa do discurso midiático (pensando na relação do discurso com o contexto, na forma de levar os conceitos e os fatos, na reconstrução das cenas e dos atores políticos).

Algumas sinalizações são bastante expressivas: 

1. PLACAR DE BOLSONARO FOI NEGATIVO

Para essa nova ideia de centro vingar, esse ator incômodo precisará ser “eliminado”, ou seus efeitos, atenuados. Jair é fruto também da articulação desses núcleos de poder, imprensa corporativa incluída, para afastar o PT do poder. Cumpriu em parte sua função, começa a se soltar demais e precisará ser reconduzido à insignificância de onde veio. Será difícil porque ele gostou muito de brincar de ser presidente e não vai sair do play. Aposto em capítulos interessantes na novela. Na edição de ontem, o JN sedimentou essa ideia da derrota de Jair – “Placar de Bolsonaro foi negativo”, com uma reportagem ampla mostrando as movimentações do presidente no primeiro turno e suas “derrotas acachapantes”, na ideia de que o apoio do presidente Bolsonaro não se reflete nas urnas. “Nas capitais, ele tinha 4 candidatos; três perderam”, e a sequência mostra os candidatos e as derrotas. 

Prossegue a reportagem: “O apoio de Bolsonaro, que nas eleições de 2018 foi decisivo, agora perdeu força. Especialistas afirmam que as críticas ao isolamento durante a pandemia geraram resistências e incertezas nos eleitores. E que, por isso,  eles escolheram candidatos moderados, rejeitando extremos e optando pelo equilíbrio”. Observem aí o funcionamento do discurso na colocação das ideias de rejeição de extremos e opção pelo equilíbrio, sempre segundo especialistas, esses sujeitos ocultos que definem conceitos importantes no discurso midiático.  

2 “É POSSÍVEL FAZER POLÍTICA SEM ÓDIO”

Essa foi a fala de Bruno Covas, um novo ator com destaque no roteiro de centro, sintetizando o que aprendeu na campanha e relembrando o avô, Mario Covas. Obviamente, o mote “política sem ódio” já está lançado e cumprirá um papel relevante tanto na desconstrução da esquerda quanto na desconstrução da direita (a extrema-direita que incomoda, pois o restante se tornou “centro”). E além de não ter ódio, o centrista raiz precisa mostrar que obedece a ciência e pensa na população. Portanto, o destaque anuncia: “Após eleições, Bruno Covas faz reunião com secretariado para discutir pandemia”. Pandemia que, durante a campanha, estava controlada em São Paulo e, curiosamente após o resultado favorável, recrudesce de forma tão imediata. Mas o que interessa é que o prefeito que não faz política com ódio e obedece a ciência, além de distribuir cesta básica durante a campanha, já se prontificou a trabalhar para resolver o problema. O centro faz assim. 

Destaque também para o ex-prefeito e novamente eleito Eduardo Paes, no Rio. A tônica do discurso foi bastante semelhante à fala de Bruno Covas, chamando ao diálogo, para combater a pandemia etc. 

Outro que mereceu espaço à parte foi João Campos, do PSB, devidamente registrado tomando café da manhã ao lado da amada e sorridente Tábata Amaral. Cena fofa dos cidadãos de bem. Ele falou dos planos, dos desafios, da reconstrução de Recife. Mas nenhuma perguntinha sobre as fake news na campanha.    

3 “DERROTADOS:  À ESQUERDA, LULA; À DIREITA, BOLSONARO”

Lula é o outro ator que precisa ser definitivamente afastado da novela para que o roteiro de centro dê certo. O vaticínio da derrota à esquerda deflagra isso. A depender dos movimentos, o repertório corrupção voltará com força. Na reportagem sobre a nova configuração de forças, ficou clara a grande constatação que vai nortear os discursos midiáticos:  

“Segundo analistas, o grande vencedor das urnas este ano foi o centro. No balanço das eleições, foram derrotados, à direita, Bolsonaro, e à esquerda, Lula”.

Retorna portanto a construção, no plano da narrativa, de que os dois se equivalem em polos opostos – são radicais em igualdade de condições, pouco importando as nuances. Essa construção dos polos radicais que se equivalem começou a ser feita em meados de 2018, no primeiro semestre, antes da greve dos caminhoneiros (em maio de 2018), exatamente colocando Bolsonaro e Lula como os radicais dos polos que precisavam ser eliminados. Está voltando.  

4 MUDA A RELAÇÃO DE FORÇAS ENTRE OS PARTIDOS 

“Os partidos de linha ideológica de centro foram os maiores vencedores nessas eleições municipais”, anuncia Renata, com um sorriso de quase alívio. A reportagem de 4 minutos passa a mostrar então os vencedores “de centro” – DEM, PSD, PP, REPUBLICANOS, PP, MDB – numa tabela que tem também o PSDB, que perdeu prefeituras.

E, em destaque a constatação: “O PT foi o grande derrotado nessa eleição. Pela primeira vez desde a redemocratização, não elegeu nenhum prefeito de capital e perdeu 71 prefeituras. Caiu de 254 para 183. Mas nomes de outros partidos de esquerda ganharam protagonismo”. E foram mostrados os exemplos de Boulos em São Paulo, Edimilson em Belém e Manuela em Porto Alegre.

Pela voz de autoridade do cientista político José Álvaro Moisés aparece a perspectiva de centro-direita e centro-esquerda – do PSDB, MDB ao PDT –, cujos partidos são os chamados a “dialogar”, a buscar “algum nome, ou alguns nomes que sejam capazes de empalmar essa perspectiva e oferecer uma alternativa nova aos eleitores”. Estou ansiosa pra ver a “alternativa nova” (sic) vinda do MDB… 

Ou seja, são essas agremiações as que se dispõem ao diálogo na busca pela reconstrução do país no pós-pandemia. Segundo a reportagem, “o recado dos eleitores é que existe espaço nos partidos de centro-direita e centro-esquerda para o diálogo”. 

5 MORO FOREVER

O ex-juiz, ex-ministro e atual advogado não apareceu na edição, mas não está esquecido. O silenciamento positivo vai operar – como no caso da nova atribuição de Moro (que vai trabalhar em consultoria que presta serviços para a Odebrecht…), que não mereceu nem alguns segundinhos na edição do JN. E Moro continuará ali como o herói ilibado na luta contra a corrupção – sempre uma função relevante para 2022. Sem contar os bate-papos com Luciano. 

A novela “Rumo a 2022 com o centro e sem radicalismos” começou. Aguardemos os próximos capítulos…