A crise no governo não foi anunciada em nenhum momento na edição – as expressões para dar conta da situação foram “mudança ministerial”, “movimentação política”. Em outros momentos, seria com certeza o primeiro anúncio taxativo: “Crise no Governo leva à troca de seis ministros”. 

Mas o que se viu foi uma edição muito morna para um dia tão quente. Não acho que foi somente incompetência para lidar com o inesperado, creio que são ajustes e acomodações para ver  a direção que a coisa toda vai tomar, principalmente pela presença forte do Centrão. 

E tudo o que ocorreu foi bem mais que uma “movimentação política” ou ainda “reforma ministerial” – além da queda do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o ministro da Defesa, por divergências com Bolsonaro, foi demitido. E há rumores de que os comandantes das Forças Armadas apresentarão pedido de renúncia. Enfim, nada corriqueiro de uma reforma.

A edição do JN mostrou as mudanças em curso, com bastante destaque para o perfil do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, que foi substituído pelo general Braga Netto. 

Deixou entrever também o clima de “supresa”, mal-estar” com a notícia da mudança e mostrou , pela manifestação do presidente da OAB, a “preocupação com os rumos da democracia”, uma vez que tanto o ministro da Defesa que pediu demissão quanto os comandantes das Forças Armadas são os chamados “generais legalistas”, que respeitam a Constituição, militares “discretos” (não ficam tuitando como outros…).

Ficou clara também a contrariedade de Bolsonaro com o comandante do Exército, Pujol, um rígido defensor de que o Exército deve se manter longe da política. Trocando em miúdos, Bolsonaro entrou em conflito porque pensa exatamente o contrário, tanto é que esperava uma declaração contundente contra a defesa do STF em favor de Lula. 

A saída de Ernesto Araújo foi atribuída à pressão do congresso – foi exibido de novo o vídeo de senadores pedindo sua saída, com a pá de cal que foi a querela com a senadora Kátia Abreu. Falou-se um pouco sobre o novo chanceler, que não não tem lá grande experiência, mas isso é quase credencial no governo de Jair. E para resumir a coisa toda, a fala pausada e leve de Rodrigo Pacheco, o novo ungido do JN, que é bem uma mistura de Tancredo Neves com Luís Eduardo Magalhães.

A edição deixou explicitada a entrada cada vez maior do Centrão no governo – a nova ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, do PL, cuja grande experiência política é ser mulher do ex-governador do DF, José Roberto Arruda,  preso por esquemas de corrupção, sacramenta esse espaço. Flávia é aliada de primeira hora de Arthur Lira.

Essas questões de fato estiveram presentes na edição, mas de modo tangencial, sem explicitar o tamanho da crise, o tamanho da ingerência de Bolsonaro, num cenário já muito difícil em função da pandemia. Ele foi pressionado, sem dúvida, mas está também aparelhando o governo como bem entende. E nada há de novo no combate à pandemia – a não ser o inusitado protocolo do novo ministro para “uso racional” de oxigênio nos hospitais.

Na edição, muitos assuntos mais periféricos, além da economia no país das maravilhas – FMI faz projeção de crescimento de 3% do PIB. Obviamente, a notícia veio assim, na forma de asserção, afirmação, sem nenhum especialista para inserir qualquer dúvida, contraponto, outro prognóstico. De fato, é um exercício insano de futurologia imaginar que um país arrasado como está o nosso – que não controla pandemia e tem mais de 14 milhoes de desempregados, além da imensa precarização das atividades econômicas – seja capaz de crescer 3% NESTE ano.    

MORO SEM CORTES

Foram seis minutos para Sergio Moro, com exclusividade, falar seu melhor morês. E se defender sem qualquer contraponto, sem qualquer contraditório, sem qualquer problematização de tudo o que é acusado e que está muito bem evidenciado sobretudo pelas gravações de mensagens obtidas na Operação Spoofing. Nada, somente a fala direta do ex-juiz e ex-ministro que se defendeu inclusive da inominável ação de prender um candidato e aceitar ser ministro do outro. Bem, foram muitos anos de parceria.

E isso, sem dúvida, é muito pior do que o tratamento tenebroso que ele deu à música de Edith Piaf – aliás, todo arrogante inculto adora arrotar conhecimento (falso) na forma de citação ou de referência a músicas ou obras literárias. Quase sempre sem dominar de fato o tema cultural refinado.

Enfim, a questão crucial é que o jornal não poderia deixar passar em brancas nuvens o fato de que Sergio Moro atuou ativamente para que o candidato favorito nas eleições de 2018 fosse preso, o que contribuiu para a vitória do outro candidato, de cujo governo ele fez parte.

A edição deixou muito a desejar. Vamos ver como tudo caminha.