Cenas do espancamento de Beto no Carrefour exibidas pelo JN

Uma edição com muitos e bons detalhes, simbolicamente bem estruturada e com muitos recados, Bonner e Renata de preto na bancada. Já na escalada, o anúncio que nomeou o evento como assassinato:

“No dia da consciência negra, a notícia de um assassinato deixa o país perplexo. Ao menos dois homens brancos espancaram um cidadão negro até a morte num supermercado em Porto Alegre. Análises iniciais indicam que ele morreu por asfixia depois de mais de cinco minutos apanhando. João Alberto Teixeira Freitas tinha três filhos e uma enteada. Parentes dele, autoridades, entidades da sociedade civil denunciam o crime brutal como ato de racismo. Várias cidades brasileiras têm manifestações de protesto. Em São Paulo, houve também atos de  vandalismo. Os espancadores que trabalhavam como agentes de uma empresa de segurança foram presos em flagrante por homicídio triplamente qualificado”.  

A notícia foi o destaque da escalada do Jornal Nacional. O assunto garantiu 42 segundos já na abertura da edição, no anúncio dos destaques. Alguns detalhes:

– O supermercado não é nomeado na escalada – ou seja, o nome Carrefour não aparece naquele momento

– O evento é nomeado como assassinato

– A questão do racismo já é mostrada – dois homens brancos espancaram um cidadão negro

  • As cenas do espancamento são mostradas
  • A foto de Joao Alberto, “cidadão negro”, são mostradas
  • Cenas de “manifestações de protesto” nas cidades foram mostradas
  • Bonner referiu-se a “atos de vandalismo” em SP, mas imagens não foram mostradas (na escalada)

Alem do assassinato de Beto, a escalada também destacou o desmatamento – o pior outubro em 10 anos –, e a expansão da Covid.

Apesar do tom da escalada, a reportagem não foi a primeira  a ser exibida. Bonner anunciou o episódio e disse que haveria mais detalhes ainda na edição (para quem for assistir na Globoplay, a reportagem está aparecendo duas vezes, e a reportagem sobre moradores de Barão de Cocais, que deverão se retirar em função da ameaça de mais uma barragem da Vale, não aparece).

Com várias reportagens sobre preconceito e racismo, não apenas a do assassinato de Beto, a edição foi um posicionamento bem marcado do JN em relação ao tema. Simbolicamente construída, mostrou ainda que o presidente Jair é totalmente dispensável. Sem fazer qualquer menção textual a isso.  

Vou colocar alguns pontos que considero mais relevantes.

ASSASSINATO NO CARREFOUR

Na abertura da reportagem sobre o assassinato, marcando um tom indignado, Bonner anunciou:

“A polícia do Rio Grande do Sul afirma que durou cinco minutos e 20 segundos o espancamento, até a morte, do brasileiro João Alberto Silveira Freitas. A vítima era um cidadão negro. Os agressores, agentes de uma empresa de segurança que presta serviço para o supermercado Carrefour. Autoridades e representantes de entidades da sociedade civil se juntaram à família de João Alberto e denunciaram o crime como um ato de racismo”.

A reportagem começou mostrando o video do espancamento:

“As imagens registradas no Carrefour da zona norte de Porto Alegre mostram os dois seguranças jogando João Alberto no chão. Ele tenta se levantar. Um dos seguranças o agarra. O outro dá socos no rosto e na cabeça. É possível ouvir pedidos de ajuda. João Alberto cai de bruços e é arrastado pelos seguranças. Dá pra ver manchas de sangue no chão. Para manter João Alberto imobilizado, um dos homens coloca o joelho nas costas dele. João agoniza, parece fazer um pedido”.  

A reportagem prossegue com o vídeo e informa que uma funcionária do supermercado, percebendo que estavam filmando, tenta intimidar as pessoas – ao fundo, dá pra ouvir pessoas dizerem “isso aí não pode, gente, não pode”.  O vídeo é deixado sem cortes, até com as cenas dos socorristas tentando reanimar João Alberto. 

A reportagem, de 10 minutos e 28 segundos, ouviu também uma testemunha que presenciou o espancamento falando que Beto não conseguia respirar. Houve ainda cenas de João Alberto no Carrefour e a informação de que ele se desentendeu com o caixa do supermercado e que lá fora deu um soco em um dos seguranças. Os espancadores (assim definidos pelo jornal) foram nomeados, e um deles foi identificado como sendo policial militar temporário que trabalha no Departamento de Comando e Controle Integrado da Secretaria de Segurança Pública do RS. Espaço grande também para a delegada que está acompanhando o caso – que foi indagada pela reportagem se considerava o caso como racismo. 

A empresa de segurança terceirizada pelo Carrefour, Vector,  teve espaço com a  reprodução de nota lamentando e salientando que dá treinamento aos funcionários. Mas ninguém da empresa foi ouvido. A manifestação, via redes sociais, do governador do RS também foi mostrada.

Em seguida, a reportagem mostrou um perfil de João Alberto: “João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, era trabalhador autônomo, pai de quatro filhos, morava a 600 metros do supermercado. Segundo a polícia, tinha antecedentes criminais por violência doméstica, ameaça e porte ilegal de arma. O pai dele esteve no IML para reconhecer o corpo”.

E entra então a fala do pai de Beto (como era conhecido) falando que perguntou o que tinha acontecido, se foi roubo ou outra coisa, e falando em agressão covarde. Na sequência, a reportagem mostra um grupo de vereadores negros, eleitos no último domingo, protestando em frente ao supermercado.

A reportagem mostrou também a nota do Carrefour falando sobre as medidas cabíveis, falando que lamenta o caso, explicando que vai romper a relação com a empresa de segurança. Mas ninguém da empresa foi ouvido.

Na sequência, outra reportagem mostrou a indignação provocada pela morte de João Alberto. Abriu com mensagem de Gilmar Mendes em rede social falando do assassinato bárbaro de um homem negro, “espancado em um supermercado”. Depois, mensagem também de Alexandre de Morais. O ministro Luis Fux aparece falando em evento com a Universidade Zumbi dos Palmares e pede um minuto de silêncio. Notas também de Alcolumbre e Maia, todos mencionando o racismo. Na sequência, espaço para Damares Alves, “que se solidarizou com a família”, e para o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, que é negro e disse, na nota, que não há racismo estrutural no Brasil, apenas circunstancial, pois há “alguns imbecis que cometem o crime”. 

Hamilton Mourão apareceu falando com os jornalistas sobre o caso. Espaço grande para dizer bobagens, lamentar e afirmar que não há racismo aqui, só nos EUA, e que viu isso quando morou lá. “No Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil, isso não existe aqui. Eu digo para você com toda tranquilidade. Não tem racismo. Eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Na minha escola, o pessoal de cor andava separado”.  Uma fala completamente tonta. 

A reportagem afirmou ainda que muitas autoridades disseram o contrário do que os dois ressaltaram e leu a nota conjunta da Universidade Zumbi dos Palmares (podiam ter citado quem criou, em qual governo), Virada da Consciência, ONG Afrobrás condenado o assassinato e cobrando providências. Mas não houve mais repercussão para a fala de Mourão. Na nota mostrada, há destaque para o desligamento da “empresa Carrefour” como membro signatário da  Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial.  Exibida também a nota da Fundação Dom Paulo Evaristo Arns de Direitos Humanos condenando o assassinato, “Mais uma triste página de um país que todos os dias pune cidadãs e cidadãos negros”, mostrando dados sobre a taxa de homicídios da população negra e alertando para que o mundo empresarial brasileiro incorpore  o respeito aos direitos humanos no seu dia a dia. 

Manifestação também da OAB, ligando ao caso George Floyd nos EUA, e exigindo providências. 

A reportagem que se seguiu mostrou as manifestações em várias cidades, com muitas imagens – Rio, BH, Curitiba, São Paulo, Fortaleza. E destacou a ação isolada de um grupo:

“Em São Paulo, um grupo atacou uma loja do Carrefour durante uma manifestação. Foi no fim da tarde. Manifestantes  caminharam até uma unidade do Carrefour. Ao chegar, um grupo quebrou portas, atirou pedras e conseguiu entrar na loja, onde teve mais quebra-quebra. O carro de um cliente que estava na porta foi depredado. Mais cedo, a marcha da consciência negra, em frente ao MASP, não teve violência. Os manifestantes reivindicaram respeito e igualdade e lembraram a violência sofrida pela população negra nas periferias do país. Pediram justiça pela vereadora Marielle Franco, assassinada  no Rio de Janeiro em 2018 e também protestaram contra a morte de João Alberto”, narrou Renata, enquanto as imagens das manifestações iam sendo mostradas.

Depois, Bonner arrematou: “Agora há pouco, um grupo pequeno de vândalos atacou o supermercado onde João Alberto foi assassinado. O grupo não fazia parte da manifestação pacífica nos arredores da loja. A brigada militar, como é chamada a PM no Rio Grande do Sul, dispersou  os manifestantes e bloqueou a rua em frente ao Carrefour”. 

Ao final, a reportagem leu uma nota do Carrefour, que informou que “todo o resultado de hoje das lojas da empresa no Brasil vai ser destinado a projetos de combate ao racismo no país”, além de pedidos de desculpas.        

Outra reportagem mostrou a mulher de João Alberto falando sobre o caso. Anunciou Bonner:

 “Esse Dia da Consciência Negra no Brasil ficou manchado pela notícia do espancamento de um cidadão negro até a morte em Porto Alegre. Um crime covarde, brutal, que provocou indignação em todo o país. E deixou perplexos todos os brasileiros. Mas, em especial, a família dele. O pai de João Alberto, que afirmou que a morte dele foi provocada por uma agressão com raiva e fúria, que foi um ato de racismo. E a mulher de João Alberto, que falou à GloboNews por telefone sobre a dor de ver o marido morrer pedindo ajuda”. Entrou então a fala da mulher de Beto contando o que ocorreu, que ele pediu ajuda, ela foi ajudar e foi empurrada e que as pessoas começaram a gritar que ele tinha ido a óbito. Para ilustrar, muitas imagens dele, em vários momentos.             

OBSERVAÇÕES GERAIS       

  1. Fico em dúvida em relação ao espaço dado para Sérgio Camargo expor seu pensamento torpe.  Assim como para a ministra Damares. Claro, são personalidades públicas com cargos relevantes, mas acho que as falas poderiam – deveriam – ser problematizadas. Sobretudo em relação ao  vice Mourão, que disse que o racismo só existe nos EUA e usou o termo “pessoas de cor”.  O espaço dado a ele tinha de ser mais ser qualificado, com a reportagem retrucando essa fala inconsequente de Mourão. E questionando inclusive o uso da expressão “pessoas de cor”. 

2. O JN mencionou, por várias vezes, o nome Carrefour, apesar de não tê-lo citado na abertura da edição. De fato não houve um ataque frontal ao supermercado, uma responsabilização mais veemente – trata-se de um anunciante de fato, mas também não observo uma operação de apagamento absoluto dessa responsabilidade – ainda que tenha havido exposição da empresa de segurança e dos “espancadores” como sujeitos também responsáveis. Foram lidas notas do Carrefour e ninguém da empresa foi ouvido.  

3. O jornal citou apenas uma vez, de modo breve, os antecedentes criminais (citados pela polícia) de Beto. Não houve maior repercussão sobre isso.   

4. Apesar da referência a “vândalos” em dado momento, a reportagem teve o cuidado de não ligá-los aos demais manifestantes, ou seja, o tom dado à abordagem sobre as manifestações foi bem positivo, o que é novidade no JN, sem dúvida. 

5. O termo assassinato foi bastante utilizado, em lugar de apenas morte. 

6. Jair Bolsonaro não aparece falando qualquer coisa sobre o ocorrido.

VEREADORA NEGRA DE CURITIBA 

A reportagem com Carol Dartora, do PT, primeira vereadora negra da história de Curitiba, foi bem ampla. 

Anuncia Renata:

“A primeira vereadora negra da história de Curitiba decidiu levar à polícia as mensagens de cunho racista postadas contra ela na internet”. E a reportagem seguiu mostrando a campanha “cheia de desafios, barreiras, humilhações” e Carol, de máscara vermelha, contando alguns casos em que sofreu preconceito: “A criança falou ‘olha uma mulher negra’, e a mãe pegou o panfleto, amassou e falou ‘nossa, que palhaçada’, e jogou fora. Na minha frente”.

A reportagem seguiu mostrando exemplos nas redes sociais, exibiu um video da vereadora em que ela responde às agressões, e manteve bom espaço para a fala de Carol, que enumerou os ataques mais ofensivos.  A reportagem informou ainda que a “professora e ativista será a primeira vereadora negra nos 317 anos da Câmara de Curitiba. Mais uma voz contra a intolerância, a desigualdade e o preconceito”.      

DESMATAMENTO NA AMAZONIA E APAGÃO NO AMAPÁ

Reportagem mostrou que foi o pior outubro em 10 anos na Amazônia em relação ao desmatamento de acordo  com dados do Instituto IMAZON – 890 km2 de desmatamento só em outubro. Destaque também para a informação de que um grupo com mais de 200 empresas e organizações ambientais cobraram ações do governo federal contra o comércio ilegal de madeira. Detalhe: hoje tem reunião do G20, e o tema ambiente será essencial. 

“A população do Amapá sofre há 18 dias com problemas no fornecimento de energia”, anunciou Bonner abrindo a reportagem sobre o assunto. A matéria mostrou a precariedade em que a população está vivendo, há 18 dias, sem que nada seja feito. Ao final, Bonner esclareceu que o Planalto informou que Jair “vai viajar amanhã para o Amapá. No décimo nono dia desde o início do apagão” . 

JAIR IGNORADO

No rol das manifestações sobre o assassinato de Beto no Carrefour não consta a do presidente do Brasil. Jair não é mencionado, citado, sequer lembrado. Ele é mencionado pela primeira vez apenas aos 46 minutos do JN. Na matéria sobre o apagão do Amapá, reforçando que ele só vai ao estado no 19º dia do apagão.

Ou seja, cada vez mais, ele tem menos a dizer. E não faz falta nenhuma.

P.S.: Hoje, o expressivo Jair disse que é daltônico. Portanto, enxerga todas as pessoas da mesma cor...