Sobre a edição de ontem, quero fazer comentários gerais ressaltando o direcionamento para construir a narrativa. Qual é o contexto? A semana da CPI será bastante intensa, com os depoimentos do ex-ministro Eduardo Pazuello, da Saúde, e dos ex-chanceler Ernesto Araujo. Os dois terão de explicar as medidas, as ações e os comportamentos que levaram o Brasil à realidade de falta de vacinas e  prognóstico de 750 mil mortos até agosto. Ernesto depõe hoje, Pazuello, amanhã.

E como toda excelente narrativa se liga ao contexto e à história, a edição do JN ligou os fios para levar o espectador a fazer todas as ligações necessárias para entender por que estamos nessa situação. Assim, ao invés de um narrador – talvez Bonner, de barba – dizer “o Brasil não tem vacinas, a China não entregou o IFA, o governo não se mobiliza”, a reportagem com Délis Ortiz mostrou tudo isso em cenas de uma história recente. 

A edição começou, então, com uma boa reportagem, de mais de 5 minutos, sobre a chegada do IFA, o insumo vindo da China para a fabricação de vacinas, ao Brasil, como aguardam ansiosamente a Fiocruz e o Instituto Butantan para fabricação de 25 milhões de doses de vacinas. A última remessa veio em abril, e o Butantan já paralisou a produção, desde sexta-feira. A conta do atraso logo é colocada no colo do governo. Diz a reportagem: “Mesmo dependendo tanto dos chineses, o governo Bolsonaro continua provocando”.

Na sequência, entra a fala de Jair na íntegra, feita no dia 5 de maio, em que ele insinua que o vírus foi fabricado na China. 

E a informação de que, depois dessa fala, a China não entregou mais o IFA, alegando problemas técnicos. E que, dois dias depois, ministros fizeram apelo ao embaixador da China para que ajudasse a agilizar a entrega, e nessa reunião, segundo o JN apurou, a embaixada reclamou dos ataques constantes do governo brasileiro e cobrou manifestações públicas de apoio. Ou seja, o problema está no colo de Jair. A reportagem mostrou ainda, com destaque, fala da senadora Kátia Abreu, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, em reunião com outros líderes, pediu que o presidente pare com os ataques: “Peço ao chanceler que oriente o governo a não nos atrapalhar. Se ele não acredita na vacina, não é a opinião geral do país”.

Na sequência, fala de um ex-embaixador e a programação de produção de vacina, que depende da entrega chinesa.

A reportagem seguinte mostrou o oposto do que ocorre no Brasil: países, como Reino Unido e Portugal,  que já retomam a vida quase normal, sem muitas restrições. Lugares em que a vacinação ocorreu num ritmo bastante ágil. Tudo o que o Brasil podia estar vivendo, é a mensagem que fica. 

Em seguida, a preparação da CPI para ouvir Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello. A reportagem quase monta um roteiro perfeito para a inquirição, mostrando todos os deslizes dos dois depoentes e as questões que eles têm de responder na Comissão. Quatro minutos de reportagem que expôs bastante a imagem dos dois e nãos e esqueceu do habeas corpus pedido por Pazuello.

A reportagem seguinte continuou a dimensionar a difícil situação de descontrole da pandemia – praticamente, uma resposta à fala de Bolsonaro de que só “idiotas” estão em casa. Claro, não houve nenhuma menção à fala tosca do presidente, o JN tem ignorado todas elas. Mas a reportagem de dois minutos deu destaque à pesquisa feita pelo Datafolha que mostra uma queda muito acentuada no isolamento social no Brasil – é o mais baixo desde o início da pandemia. Ou seja, as pessoas estão circulando, e o vírus está descontrolado.

Todo o primeiro bloco dedicado a dimensionar as razões da nossa tragédia sanitária e os culpados por ela.

ELEIÇÕES NO CHILE

Bolsa cai, dólar sobe é o binômio usado e requentado para anunciar uma vitória eleitoral de esquerda no Brasil. Não foi diferente no Chile. Com tantos pontos a salientar – como a maioria de mulheres eleitas para a Assembleia Constituinte –, o destaque no JN foi mesmo para o binômio. Além, claro, de reforçar apenas o protagonismo dos chamados “independentes”. 

Os “independentes”, como revelado nas entrelinhas da reportagem, têm vinculação com a esquerda, e não com a direita. Ou seja, foi na verdade uma vitória da esquerda e uma grande derrota da direita de Piñera. Diz a abertura da reportagem:”Neste domingo, no Chile, candidatos independentes conquistaram mais de um terço das cadeiras na eleição para a Assembléia Nacional constituinte, que vai redigir uma nova Constituição. Hoje a Bolsa de Valores do Chile fechou em queda de quase 10%”.

Alguns analistas políticos falaram sobre a vitória e a perspectiva de mudanças – mostrando também as cadeiras conquistadas pela esquerda – e outro lembrou os “perigos” da não vinculação a partidos políticos. Bem burocrática a reportagem, sem sinalizar os ventos de mudança que começam a soprar, enfim. O que já era de se esperar.