Na edição de sexta-feira, reportagem de sete minutos destacou a divulgação do site Metrópolis e ressaltou que o video reforçava a tese da CPI da existência do gabinete paralelo do governo Bolsonaro. Na edição de sábado, outra reportagem, dessa vez com 12 minutos, destacou que “Polícia Federal afirma que encontrou indícios de que apoiadores e parlamentares bolsonaristas discutiram ações para a propagação de discursos de ódio e a favor do rompimento institucional”.

E ontem, segunda, outra reportagem de seis minutos repercutiu a decisão do ministro Alexandre de Morais de retirar o sigilo do inquérito sobre os atos antidemocráticos, com detalhes sobre o relatório da PF que indica o envolvimento de parlamentares, empresários e grupos extremistas. Muitas imagens para ajudar a resgatar a complexa história dessa investigação, que envolve figuras como Bia Kicis e Iara Giromini, que está em prisão domiciliar. Houve destaques para a comunicação entre um assessor ligado a Bolsonaro e a extremista, além de mensagens do blogueiro Alan dos Santos fazendo apologia a uma ação das Forças Armadas para deter um suposto “golpe” e a menção a ministros do STF. A história toda foi retomada de um modo bem esclarecedor e bem detalhado.

COVID E VACINAS

O tema Covid está presente, claro, mas sem muitas novidades, que ficam por conta das revelações da CPI. Há destaque para a ocupação dos leitos de UTI em vários estados. A dimensão do descontrole e da ameaça da terceira onda – mesmo que efetivamente o país nem tenha saído da primeira – é marcada nas reportagens, sobretudo com o número de casos e mortos, mas não há um foco muito grande nesse aspecto específico.  

Por outro lado, o tema vacinação tem ganhado mais e mais destaque, com diversas abordagens – a situação no Brasil, a falta de insumos, a dependência brasileira de matéria-prima, a previsão de vacinas, a comparação com outros países. 

BONNER E O SUS

Claro, um dos pontos altos da edição de ontem foi a quase declaração de amor de William Bonner ao SUS no momento em que informou que tinha sido vacinado. Logo após o balanço dos números da Covid no país, o apresentador ressaltou que muitas pessoas têm deixado de tomar a segunda dose, mas que isso é muito importante e que ele tem um compromisso no fim de agosto em tomar a segunda dose. E então ele falou que tinha tomado ontem a primeira dose da vacina e que tinha sido uma “experiência fantástica”. Elogiou o carinho e o compromisso dos profissionais e disse que é preciso ter uma gratidão enorme por essas pessoas.

Em meio ao discurso de gratidão, Bonner aproveitou para cutucar o governo sem mencioná-lo, claro, afirmando que o Brasil demorou muito a começar a vacinação, e disse que a gratidão era enorme e que tinha o desejo de que milhões de brasileiros, o mais rápido possível, pudessem ter acesso à vacina. E foi sarcástico também ao dizer que:

 “Como todos sabem, o mundo não é plano, ele é redondo, ele gira, e à medida que ele gira, ao longo do tempo, os médicos vão aprendendo. Os melhores médicos desse mundo que é redondo e gira, eles não param de aprender. Eles aprenderam na faculdade e continuaram aprendendo no exercício da profissão e trocando informações globalmente, mundialmente. Eu tô dizendo isso porque esses médicos que aprendem muito estão insistindo em que você deve tomar as duas doses de sua vacina. Esse é o recado que eu queria deixar aqui bem claro, e a Renata também, nessa edição do Jornal Nacional. E a gente vai em frente, né?”.

Sem dúvida, uma boa fala, bem certeira e estabelecendo proximidade com o espectador. Mas, nesse momento, eu já estava irritada porque ele não havia mencionado o SUS. Não tinha agradecido, lembrado o papel do Sistema Único de Saúde. Então, mais que de repente, se corrigiram (alguém deve ter soprado no ponto), e na entrada da matéria seguinte, veio o recado:

A Renata falou em gratidão com a primeira dose da vacina, e a gente tem gratidão, obviamente, por todo o pessoal do Butantan, pelo pessoal da Fiocruz, esses pesquisadores fantásticos, e por todo mundo que integra este GIGANTE, este GIGANTE chamado SUS. Sem ele, não teria nada disso”. 

No que Renata completa, repetindo o mote que se tornou praxe entre os vacinados que sofrem de delírios comunistas: “É isso, viva o SUS”.

E a fala bonitinha – que poderia sim ter contemplado a necessidade de mais recursos para o SUS – veio antes de matéria sobre a CPI informando que os senadores iriam se dedicar a dois pontos principais na semana: a atuação do chamado gabinete paralelo e o novo depoimento do ministro Queiroga. Tudo bem orquestrado e cheio de recados. Sem qualquer menção ao governo ou a Jair Bolsonaro, que continua não existindo para o JN – salvo em momentos bem específicos.     

DETALHE: a imagem ao fundo, compondo a cena de apresentação da fala pró-vacina e pró-ciência, traz seringas e vidrinhos de vacina e também vai girando suavemente à medida que Bonner fala. Já falei aqui em outros momentos que – para o bem e para o mal – a construção simbólica do JN para a apresentação de certas notícias, com um mix muito bem feito de imagem e texto, é muito expressiva.