Na edição, foram 9 minutos de CPI, 23 de Paulo Gustavo, 2 para a média de casos e mais 2 minutos para a fala de Bolsonaro criticando de novo a China. Ou seja, numa edição de pouco mais de 50 minutos (descontando os intervalos), 36 deles foram para bagunçar o coreto do governo. Bagunçar bastante.

E para além do tempo, vale destacar o encadeamento das reportagens, a sequência na edição, as imagens, os recortes, o fio condutor narrativo: começo, meio e fim – ápice de denúncias, a intervenção sempre tosca de Jair e o final com aquilo que poderia ter sido evitado, em consonância com as denúncias da CPI.

Vamos a mais detalhes.

CPI

A reportagem de 9 minutos começou com o pedido de silêncio pela morte do ator Paulo Gustavo e pelas vítimas da Covid. Na sequência, ênfase nas ações da “tropa de choque” do governo, sobretudo o senador Ciro Nogueira, que provocou embates com a bancada feminina – muitas cenas das discussões – em função da participação da da senadora Eliziane Gama, do Cidadania. Ela, sem dúvida, faz perguntas muito pertinentes e incisivas.  Bom foco da reportagem nos embates e na tentativa governista de atrapalhar.

Depois, destaques para o depoente da vez, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich, que falou da falta de autonomia para trabalhar no governo. Ele citou momentos mais delicados, como uma fala do presidente Bolsonaro sobre expansão do uso do medicamento cloroquina para tratar a Covid, em seguida uma live com a mesma e outra fala dizendo que os ministros tinham de estar afinados com o governo. Ele falou também que não sabe por que os médicos prescrevem a cloroquina, uma vez que há pesquisas comprovando a ineficácia. 

Bom espaço também para o senador Otto Alencar, da Bahia, que desconstruiu o argumento da “eficácia” da hidroxicloroquina. Boa fala e bom destaque.

Houve também bastante foco para o tom evasivo de Teich, até com fala do presidente da CPI, senador Omar Aziz, que afirmou, meio irritado que “fica difícil” levar alguém para depor que não se lembra de nada.  Na reportagem, muitos detalhes dos vacilos e da fala titubeante e evasiva.

Em cena, novamente, o protagonismo do relator, Renan Calheiros, que questionou a questão do andamento da compra de vacinas e fez intervenções bastante incisivas. 

Logo em seguida, outra matéria mostrou a fala de Jair Bolsonaro insinuando que o vírus foi criado em laboratório e perguntando, em tom de galhofa, “qual país que mais cresceu (sic) o PIB?”. A reportagem fez um recorte para mostrar que os senadores na CPI ficaram pasmos com a declaração, e o presidente da Comissão se manifestou dizendo que era um absurdo nesse momento em que precisamos da China para os insumos das vacinas.  

Depois das reportagens sobre a CPI e o ogro, digo, presidente, como que para rechear as abordagens, uma breve nota informando que a previsão de entrega de vacinas sofria nova baixa. 

PAULO GUSTAVO E O NEGACIONISMO QUE MATA

No ultimo bloco, as homenagens ao ator Paulo Gustavo. No conjunto, foram três reportagens, com recortes importantes da vida e da carreira do ator, com destaque para os aplausos na cidade de Niterói para homenageá-lo. A primeira reportagem da série, que exaltou uma pessoa simples e muito feliz, é encerrada com falas da atriz Fernanda Montenegro afirmando que o país fica ainda mais pobre nesse momento trágico que vive, e mais cenas dos aplausos em Niterói. 

Depois, reportagem mostrou a riqueza dos personagens e mostrou que “Paulo Gustavo fez o Brasil rir com personagens inesquecíveis” e que “o humorista também ajudou a combater preconceitos. Dona Hermínia deu várias lições de amor e de compreensão sobre como aceitar as escolhas dos filhos”.

Muitos depoimentos e a fala da atriz Nada Costa, ao lado da mulher, depois de cena do filme Minha mãe é uma peça 3, em que a personagem dona Hermínia, no casamento do filho gay, diz que está muito orgulhosa por ele seguir o caminho do amor. No depoimento, Nada Costa comentou dizendo que o casamento gay, no cinema brasileiro, num filme de grande bilheteria é “de uma importância  gigantesca, pra nossa família é uma referência imensa”. Pra encerrar essa reportagem, a fala do próprio Paulo, no especial de fim de ano, em 2020: 

“Rir é um ato de resistência. A gente agora está precisando dessa máscara chata para proteger o rosto desse vírus, e infelizmente essa máscara esconde algo muito precioso para nós brasileiros: o sorriso. Ele está tapado, tem de ficar tapado, mas ele existe. E ele não vai deixar de existir. A gente não vai deixar de sorrir. Não vai deixar de ter esperança”. 

Na última reportagem, muitos momentos com o marido, com os filhos, com amigos e muitos depoimentos. Cenas com a mãe, com o marido Thales e com os vários amigos em brincadeiras e conversas. E muitos momentos lindos com os filhos Romeu e Gael. 

E então, depois das várias cenas alegres,  a fala fazendo a ligação com a realidade de um país abandonado: “O que não tinha graça para Paulo Gustavo era o descaso com o avanço da Covid no país”. E a lembrança, exibida na tela, de que, em janeiro, ele publicou nas redes sociais o video de uma moça em Manaus dizendo que o oxigênio havia acabado. A reportagem mostrou o apelo dele e informou que ele doou cilindros de oxigênio.

Em seguida, entra o depoimento de Regina Casé, muito emocionada: “Eu acho que não é só tristeza, tem também uma violência que não é só contra nós que estamos perto dele. Uma violência contra tudo o que a gente tem de melhor. Tudo o que o Brasil tem de melhor”. 

Entra na sequência o repórter mostrando as manifestações de carinho por todo o país e para dizer que Paulo Gustavo, “artista querido e reconhecido comoveu o público ao lutar contra uma doença que avança no país agravada pelo negacionismo e a falta de uma ação eficiente das autoridades”. E prossegue: “O mesmo que acontece com milhares de brasileiros, que todo dia lutam pela vida e não conseguem”. 

Ou seja, colocou a morte do ator querido e símbolo da alegria brasileira  e de milhares de outros brasileiros anônimos no colo do negacionismo de Jair. 

Houve outros depoimentos, como o de Tatá Werneck e Caetano Veloso, que disse que “tem de vir uma resposta da alma brasileira à situação que nós estamos vivendo”.

E a reportagem se encerra com Paulo Gustavo e o marido brincando em casa, de esconde-esconde, com os filhos bebês dando gargalhadas. Cenas de uma família interrompida pelo vírus que não tem controle no Brasil.